Nesta pesquisa, analisei uma versão – uma tradução que parte da língua materna para uma língua estrangeira – traduzida por mim de um livro de literatura periférica intitulado Os funerais do coelho branco, de Nenê Altro (2014). Esta versão foi produzida durante o bacharelado em Tradução cursado na Universidade Estadual de Maringá (UEM), em 2017. Além disso, trabalhei, também, com versões do mesmo texto realizadas por alunos do mesmo curso, turma 2018.O objetivo foi analisar o processo de leitura e a formação do leitor-tradutor do texto literário, assim como o seu papel de agente nesse processo interpretativo que é materializado pelas suas escolhas tradutórias. Para tal, busquei identificar marcas da voz e da leitura do tradutor nos textos envolvidos. Meu olhar se voltou para os possíveis efeitos causados no leitor-tradutor a partir das diversas possibilidades de tradução de um texto, analisando-as em sua relação de suplementaridade (DERRIDA, 1973). Para contextualizar os estudos da tradução, traço panoramas, tanto históricos quanto epistemológicos, que têm por objetivo localizar a tradução nos acontecimentos e ideologias vigentes ao longo da história. Desconsidero binarismos que determinam uma relação hierárquica entre escolhas distintas, ponderando sobre questões sociais que podem ser refletidas no processo tradutório. A fim de alcançar esses objetivos, propus uma pesquisa a partir de uma visão pós-moderna de tradução e com base na hermenêutica filosófica e autoetnografia, posturas epistemológicas que me permitem escrever em primeira pessoa e assumir participação nesse estudo. Essas investigações se justificam, primeiramente, pela relevância de seu escopo, já que as discussões sobre tradução, pós-modernidade, injustiça social e formação do tradutor são questões de interesse social nos dias atuais. Isso porque nos conectamos ao resto do mundo através da importação e exportação de ideias pela tradução, pela leitura, o que possibilita o reconhecimento de novas perspectivas e, entre outros, o enriquecimento pela alteridade. Além disso, o trabalho promove retorno da pesquisa acadêmica à sociedade por conta do material trabalhado: um texto literário não-canônico, de produção independente e que pode ser considerado periférico ou “underground”. Essa investigação parte dos pressupostos teóricos, principalmente, de Jacques Derrida (1971; 1972) e sua Desconstrução. Além disso, a concepção de tradução que rege essa pesquisa conta com o aporte teórico de Arrojo (2003), Olher (2010), Rodrigues (2000), Esteves (2014), Rajagopalan (2007) e outros, que entendem-na como a materialização de uma leitura, com possibilidades de sentidos múltiplos, contrapondo-se à defesa da existência de uma “essência textual” pela qual o tradutor deve fidelidade.
Palavras-chave: Desconstrução; Pós-modernidade; Tradução.