Nossa tese propõe abordar o MEB a partir de uma nova perspectiva analítica.
Diferentemente da historiografia sobre o movimento – que não discute o lugar desta força
política nos debates agrários nacionais –, buscamos analisar a ação política do MEB no campo
brasileiro, entre 1961 e 1966. Nesse sentido, discutimos como o conceito de “camponês” e a
natureza da “reforma agrária” foram caracterizados nas cartilhas Viver é lutar, Mutirão e
Educar para construir, durante as três fases do movimento, a fase modernizadora (1961),
quando o movimento estava muito mais próximo dos argumentos episcopais nacionais,
enxergando os problemas rurais pelo viés agrícola, indicando como soluções a ampliação do
acesso ao crédito rural, a formação de cooperativas, a capacitação técnica dos trabalhadores
rurais, a criação de centros sociais, a divulgação de conhecimentos médico-sanitários e as
parcerias público-privadas (Estado, patronato e trabalhadores rurais); a fase progressista (1962
a 1964), quando o movimento se aproximou, significativamente, dos pressupostos da
encíclica Mater et Magistra, criticando o imperialismo, a desigualdade socioeconômica e a
concentração fundiária, e defendendo a participação política dos trabalhadores, a realização de
uma reforma agrária, que democratizasse o acesso a pequena propriedade privada (reforçando
seu papel emancipador), e a atuação do Estado como garantidor do acesso ao crédito, da
capacitação profissional e da formação de cooperativas; a fase progressista conservadora
(1965-1966), momento em que o MEB esteve alinhado às propostas modernizadoras do
governo militar, retomando as pautas de 1961, mas mantendo algumas proposições do
reformismo cristão. Nossa análise tem como eixo os signos de “camponês” e da natureza da
“reforma agrária”, porque, ao redor deles, ricos debates foram produzidos pelas forças que
atuavam no meio rural, e privilegia os conjuntos didáticos, pois estes materializavam os
objetivos políticos do núcleo dirigente do MEB – por meio deles este setor conseguia falar
diretamente com os trabalhadores rurais, atuando na constituição dos seus modos de vida e
das suas visões de mundo. Adotando como referências teórico-metodológicas as ideias de
Thompson, de Romano, de Marx e Engels, de Chauí, do Círculo de Bakhtin, de Williams, de
Fairclough e de Scott, procuramos fazer uma análise bidimensional dessas cartilhas,
discutindo tanto sua estrutura textual como a conjuntura político-econômica na qual se
inseriam – considerando-as, ao mesmo tempo, práticas sociais reflexivas dos conflitos de
classe e elementos por meio dos quais se buscava intervir e alterar os modos de vida. Assim,
recorremos a uma diversidade de fontes: boletins e diretrizes do Conselho Diretor Nacional
(CDN) do MEB, documentos legais assinados ou produzidos pelo movimento,
correspondências trocadas entre monitores, alunos e coordenadores, pautas e materiais das
reuniões de treinamentos dos seus monitores, relatórios enviados pelos monitores à
Coordenação Estadual e ao CDN do MEB, anais dos encontros de coordenadores, cartas
pastorais, obras dos principais teóricos pecebistas e dirigentes das Ligas Camponesas,
documentos oficiais das principais organizações políticas e econômicas que atuaram no
campo, projetos de lei que circularam no congresso federal e periódicos ligados aos
movimentos rurais de orientação marxista, à Igreja Católica e da grande imprensa