Trata-se de um estudo sobre o rock brasileiro dos anos 1980, o Rock Brasil, geração musical
que emergiu, alcançou sucesso comercial e reconhecimento, por meio das instâncias de
consagração da música popular brasileira, ao mesmo tempo em que, na esfera política e social,
ocorria o processo de redemocratização do país. A partir dos pressupostos teóricometodológicos
de Pierre Bourdieu, realizamos um estudo da biografia coletiva (prosopografia)
dos roqueiros brasileiros do referido período, buscando identificar o perfil social coletivo dos
expoentes desta vertente musical e possíveis explicações de como estes agentes foram
capturados pela indústria fonográfica, além de fazer a análise de algumas músicas e declarações
dos mesmos. A pesquisa prosopográfica demonstrou que o mainstream da geração de roqueiros
brasileiros dos anos 1980 foi formada por indivíduos jovens, brancos, do sexo masculino,
detentores de alto grau de capitais econômico, social e cultural (com circulação pelo exterior e
socialização com o rock internacional). Esse perfil, que possuía alguma orquestração com o
perfil do novo público consumidor, dialogava com a necessidade de renovação da indústria
fonográfica. Em contraposição, vemos nos agentes do considerado rock underground do
mesmo período, a predominância de jovens egressos de bairros periféricos da cidade de São
Paulo, trabalhadores assalariados e com baixa escolaridade. Assim, a pesquisa aponta coexistir
– no interior do agrupamento mainstream e no interior do underground – algo que chamamos
de uma homologia no habitus de classe, objetivada, aqui, por meio das trajetórias analisadas.
Por fim, destacamos que a partir do sucesso comercial, da projeção pública alcançada e do
capital simbólico adquirido, alguns desses artistas foram alçados à condição de “porta-vozes”
da juventude, contribuindo, em alguma medida, na construção e, principalmente, reprodução
de visões sobre o Brasil, os brasileiros e a política nacional.