O estudo do corpo humano está presente em vários momentos da vida escolar. Embora seja um tema que desperte bastante o interesse, a literatura identifica dificuldades dos estudantes reconhecerem o corpo estudado, como igual ao seu corpo. Entre os motivos apontados para este não reconhecimento, indica-se a apresentação fragmentada do corpo humano no ensino de ciências. Essas considerações levaram ao desenvolvimento da pesquisa que resultou nessa tese que tem como tema o estudo do corpo humano, nos séculos XVI e XVII, adotando a História Cultural das Ciências como vertente historiográfica. Na parte teórica da pesquisa, realizamos um estudo histórico em fontes primárias e secundárias, a fim de analisar as práticas cientificas, atores sociais e a cultura visual envolvidos na construção do conhecimento científico a respeito do corpo humano no recorte temporal do denominado Nascimento da Ciência Moderna. Esse estudo gerou subsídios para a parte empírica da pesquisa, realizada por dois anos letivos consecutivos (8° e 9° ano) com estudantes do segundo segmento do Ensino Fundamental da rede pública estadual do Rio de Janeiro, Brasil. Os estudantes participantes da pesquisa eram, em sua maioria, afrodescendentes. A pesquisa foi realizada utilizando uma adaptação da metodologia da pesquisa-ação, que
denominamos pesquisa-ação histórica, e buscou trazer para o ensino do Corpo Humano uma abordagem histórico-cultural, com o enfoque em práticas científicas, como as dissecações públicas e a produção de tratados de anatomia. Além disso, atenção foi dada às pessoas que participavam desses estudos e de quem eram os corpos estudados. Ao longo dos dois anos de atividades, os principais temas abordados foram: circulação sanguínea, visão, uso de lentes e eletricidade medicinal. As questões ressaltadas foram trabalhadas a partir de atividades individuais e em grupo, discussões coletivas e uso de imagens produzidas no período estudado. Os estudantes trouxeram questões relacionadas à autoria e à produção coletiva do conhecimento científico, destacando a ausência de estudos, no contexto histórico tratado, de corpos negros e femininos, assim como, a não participação de mulheres e negros na fazer científico. A discussão das práticas científicas e atores sociais na construção de conhecimento do corpo humano dentro do recorte histórico possibilitou reflexões com os estudantes a respeito dos corpos e atores invisibilizados e como o modelo de corpo estudado naquele período está presente até hoje no estudo do corpo humano no ensino de ciências. Além disso, esta abordagem possibilitou trazer discussões relacionadas ao contexto dos estudantes, mostrando que a abordagem histórica pode ser um caminho para superar essa incompatibilidade cultural em aulas de Ciências.