O objetivo desta investigação é analisar as construções dos femininos nos discursos médicos de Nise da Silveira (1905 – 1999), entre finais dos anos vinte até a década de sessenta. Silveira formou-se em medicina na Faculdade da Bahia, em 1926, apresentando como trabalho de conclusão de curso, um ensaio sobre a criminalidade feminina. Com o intuito de abordar essa temática, Silveira transitou em sua tese por uma gama de discursos médicos, tais como: a antropologia criminal, a teoria da degenerescência, a higiene mental e a psicanálise. Nesse período, Silveira também fez uso de uma concepção organicista sobrea natureza patológica feminina. Em 1928, ao falar sobre o crime feminino em uma entrevista para uma revista, enfatizou sobre o problema social da condição feminina no Brasil.
Na década de trinta, no Rio de Janeiro, a médica escreveu um artigo sobre filosofia e sociedade, apropriando-se de uma ótica marxista, falando de temas relacionados ao proletariado e de uma revolução socialista. Neste período, a médica manteve uma postura antifascista. Em 1944, após voltar de uma prisão política, Silveira passou a atuar como psiquiatra, no Centro Psiquiatra Nacional de Engenho de Dentro. Do final dos anos quarenta até os anos sessenta, a médica construiu discursos relacionados a saúde mental, que envolviam a terapêutica ocupacional, a esquizofrenia, o inconsciente e a subjetividade, apropriando-se principalmente das teorias de Carl Gustav Jung.
No que que diz respeito à loucura feminina, Silveira a partir das contribuições de Jung, construiu uma ideia de um instinto feminino estruturado no inconsciente da mulher. Ao relacionar as noções de feminino, natureza e psiquê, nos anos cinquenta Silveira compreendeu o feminino como algo naturalizado e pertinente à dicotomia
masculino/feminino.