Buscar a valorização da história e cultura afro-brasileira e africana no Brasil, assim como preconiza a Lei 10.639/2003 e suas diretrizes (BRASIL, 2004) e orientações (BRASIL, 2006) é reconhecer, oficialmente, as contribuições dos povos negros africanos e afro-brasileiros para a constituição dos aspectos sócio-linguísticos-identitários do Brasil e, por meio das diferentes diásporas, os povos negros desenvolveram formas de resistência a diferentes processos de inferiorização, sendo as línguas usadas para marcar traços de inserção de sujeitos negros em diferentes ambientes. Dentre as inúmeras contribuições das diásporas africanas para a formação do Brasil, pode-se observar como se desenvolveram formas de interação intermediadas por línguas e, para tal, como essas línguas foram usadas para marcar diferentes posições sociais em espaços de interação. Desse modo, nesta dissertação, o estudo centrou-se na análise de diferentes itens lexicais em que sujeitos/personagens do romance Rei Negro (NETO, 1914) utilizaram vestígios de línguas africanas – neste caso, especificamente advindos do tronco linguístico banto – e a língua portuguesa para a formação de sentidos sobre formas de identidades negras no romance. A descrição dos aspectos lexicais do enredo consistiu em observar como a narrativa de Rei Negro desenvolveu personagens que se constroem em espaços de socialização, cujas línguas são elementos delimitadores desses espaços (HALL, 2003, 2006, 2014, 2016; BAUMAN, 2005). De maneira geral, para atingir os objetivos propostos desta dissertação, os procedimentos metodológicos adotados foram: leitura e seleção de itens lexicais da obra; a partir desse levantamento, construíram-se Fichas Lexicográficas das lexias, organizando-as e indicando o seu contexto de uso para se interpretar formas de produção que marcam, de alguma forma, características identitárias dos personagens do romance. Alguns resultados apontam que o romance agrega valores positivos relacionados ao uso da língua portuguesa e valores negativos ao uso de resquícios de línguas africanas e/ou do português “africanizado”. Esse fator é resultado da construção histórica e do projeto colonial de construção de um Estado/Nação com uma língua única e “oficial” que é a língua do branco e o menosprezo às produções linguísticas que promovem relações com as línguas africanas.