A partir da crítica às práticas majoritariamente centradas no tradicional modelo campanhista
de saúde pública, integrantes do Laboratório Interdisciplinar de Direitos Humanos e Saúde da
Universidade Federal do Rio de Janeiro desenvolveram, de 2016 a 2019, projeto de extensão
que visava fortalecer ações de promoção da saúde e prevenção ao vírus zika junto a
profissionais da atenção primária à saúde do Complexo do Alemão, Rio de Janeiro/RJ, Brasil,
referenciadas pela educação popular e quadro da vulnerabilidade e dos direitos humanos. As
propostas de educação em saúde que se pretendem ser inovadoras e participativas, a despeito
dos investimentos acadêmicos e das políticas públicas, parecem não alcançar porosidade no
cotidiano das práticas pedagógicas dos serviços de saúde. Assim, o desenho metodológico
desse referido projeto pretendeu constituí-lo como uma tecnologia social. Ao buscar alinhar
uma proposta pedagógica crítico-problematizadora aos pressupostos e às dimensões e
características das tecnologias sociais, indagou-se nesta investigação sobre as possibilidades e
limites de padronização e reaplicação de uma ação pedagógica nesta perspectiva. Partindo
dessa experiência extensionista, esta tese de doutorado buscou compreender como a educação
popular em saúde pode ser concebida como tecnologia social. Procedeu-se com um estudo de
natureza qualitativa exploratória do tipo documental, tomando os marcos teóricometodológicos da educação popular e tecnologia social como base. O material empírico da
pesquisa consistiu na análise documental dos relatórios do projeto de extensão, que incluiu
tanto o registro dos extensionistas em campo, quanto as diversas produções dos profissionais
de saúde que participaram das oficinas, tais como mapas falantes, narrativas e projetos de
intervenção. Os dados foram analisados a partir de uma interpretação compreensiva,
respaldado na hermenêutica. As congruências de valores, a reciprocidade epistemológica e as
orientações práxicas da tecnologia social e da educação popular em saúde demonstraram,
tanto no nível teórico-conceitual, quanto no prático, que a ideia de uma metodologia de
educação em saúde reaplicável a partir da pedagogia crítica pode ser frutífera. No entanto,
pensá-la para uma emergência sanitária reservou desafios particulares, que se figuraram como
situações-limite para as suas aspirações transformadoras. Na dimensão técnica, identificou-se
que a proposta metodológica permitiu os sujeitos envolvidos investigarem as emergências do
território que configuravam como situações-limite para o enfrentamento da emergência de
saúde pública. A análise multidimensional de vulnerabilidades e a educação popular em saúde
permitiram identificar os múltiplos pontos do território vulneráveis à proliferação de
mosquitos e que não dependem apenas da vontade ou do comportamento dos seus moradores,
ou seja, que são condicionados a contextos sociais e político-programáticos. Na dimensão
arte, identificou-se a impossibilidade de tecnologização de aspectos que se relacionam a
prática de ação-reflexão do educador. Dado que o padrão técnico da metodologia não é
transformador per se, destaca-se a importância do agenciamento necessário para que a sua
potencialidade transformadora seja explorada ao máximo naquele contexto diante das
situações-limite ali existentes, para os quais a imprevisibilidade da “vida como ela é” sempre
vai exigir uma atitude de reposicionamento e re-projeção deste padrão. Ademais, viver a tensa
relação entre o respeito aos saberes locais e o desafio de superação de alguns destes saberes
requer assumir as temporalidades de cada sujeito no processo coletivo de conscientização.