Em Vitória da Conquista, a partir de 2000, teve início um forte movimento jovem envolto em musicalidade, mais especificamente, no gênero “rock”. De uma década de 1990 marcada pela escassez de eventos, bandas e produções fonográficas nesse nicho específico, passou-se a uma cada vez maior frequência de shows, encontros, ensaios, músicos e demais iniciativas tipificadoras do conceito de “cena musical” aperfeiçoado a partir dos escritos de Will Straw ao final do século passado. A cena do rock conquistense diferenciou-se de movimentações anteriores não apenas por uma inédita quantidade de bandas em atividade mas, ainda, de pessoas envolvidas em diversas atividades em prol da sua manutenção e crescimento, como produtores de eventos, proprietários de espaços culturais, mídia especializada, capacitação profissional, dentre outros, acompanhando as tendências globais que transformaram o mercado fonográfico após a popularização da internet, a generalização da pirataria e o acesso facilitado a softwares de gravação, edição e plataformas de distribuição de música. A presente pesquisa aborda o recorte temporal local entre 2000 e 2014, compreendendo as fases de formação e consolidação da cena, a partir de 14 entrevistas realizadas com personagens de diferentes categorias (produtores de eventos, músicos, comunicadores, técnicos de som e o próprio público, que participaram da cena ativamente durante o período abordado, incluindo pessoas que também vivenciaram fases anteriores) através da metodologia da história oral de vida, para o acesso espontâneo a informações e marcos da memória coletiva do grupo, pouco abordadas pela Academia até então, possibilitando, ainda, pensar a cidade, espaço onde se realizaram todas as dinâmicas estudadas, e suas transformações com o decorrer do tempo. Utiliza-se, paralelamente, de fontes bibliográficas, sobretudo para o trabalho de contextualização da cena local com as transformações do mercado fonográfico em paralelo aos avanços tecnológicos e seu importante papel transformador, bem como de fontes documentais (jornais independentes de época, cartazes de shows, arquivos multimídia e matérias publicadas na internet) em cruzamento com os dados coletados nas entrevistas. Em nível de análise da estrutura social da cena rock conquistense, a pesquisa a situa em relação à teoria dos campos de Pierre Bourdieu, compreendendo o campo musical enquanto microcosmo dotado de relativa autonomia, características e dinâmicas de disputas sociais próprias, inclusive em relação a outros campos.