As discussões contidas nesta tese estão ligadas a um grande eixo temático, a luta de
representações e o conflito periferia x centro contido nele. São perceptíveis, na construção
topográfica dos espaços urbanos, os conflitos sociais, as idiossincrasias da cidade. Neste
sentido a periferia abandonada pelo Estado e discriminada pelas bases hegemônicas da
sociedade, constrói suas próprias representações e redes de sociabilidade. Inclusive,
construindo para si, sua própria imagem, identidade, seus signos e desenvolvendo sua
autoestima. Neste cenário a figura de Zeca Pagodinho sintetiza esta construção. Através de
uma análise construída a partir da Nova História Cultural é possível perceber a construção de
redes de sociabilidade criadas por habitantes da periferia no final do século XX e início do
século XXI. Estas redes de sociabilidade configuraram-se em movimentos culturais e
artísticos que originaram um novo gênero de samba, mais popularizado, denominado pagode,
e por consequência, criam um novo nicho no mercado cultural. A partir de uma abordagem
inserida na micro-história, será estabelecido como foco de análise a carreira de Zeca
Pagodinho, que conseguiu atravessar as fronteiras estabelecidas entre a periferia e o centro,
estabelecendo-se, como ícone da primeira e difundindo entre a segunda um gênero musical
antes marginalizado. Zeca se popularizaria com o apoio da mídia e acaba levando o pagode da
periferia para o centro ideológico da metrópole carioca. Ao fazer este movimento em direção
ao centro, o artista não se desvincula de seu ethos, pelo contrário, faz com que a periferia com
suas peculiaridades, passe a ser consumida pelo centro. O partido-alto representa o discurso
subalterno e busca uma identidade comunitária, afrodescendente e imersa na ancestralidade da
tradição oral e na religiosidade de matriz africana, não sendo somente música e festa, ele
representa a corporificação do signo, a junção da tradição de gênese africana à essência da
urbe carioca. Neste contexto a figura do malandro, um ente anteriormente deslocado das
regras formais, torna-se uma figura socialmente aceita vinculando-se a aspectos de
vivacidade, esperteza, simpatia, carisma, ginga, etc., tornando-se a corporificação da imagem
do carioca e demonstrando a capacidade de adaptação do subalterno. Zeca torna-se este
malandro socialmente aceito, sintetizando a essência do carioca suburbano. Zeca se torna a
voz da periferia tanto materialmente, enquanto provedor de oportunidades de divulgação do
pagode de partido-alto de anônimos na escolha de seu repertório, quanto imaterialmente por
sintetizar a malandragem ao estilo Zé Carioca. Este artista, com sua trajetória, seus trejeitos e
com as próprias letras de seus sambas cria relações de pertencimento e extraí de seu fazer
artístico a essência do que lhe é semelhante, tornando-se reflexo do seu local de origem