O presente trabalho problematiza o cenário escolar, os encaminhamentos e posturas referentes
aos estudantes os quais, segundo professores da Rede Pública Municipal de Juazeiro,
apresentam dificuldades de aprendizagem. Tem-se como pergunta mobilizadora: como
possibilitar a aprendizagem aos estudantes cujos caminhos e tempos para a aquisição da
aprendizagem não coincidem com aqueles previstos pelas instituições de ensino? Objetiva-se
investigar a fundamentação em que se apoiam os docentes e coordenadores pedagógicos das
escolas municipais Crenildes Luiz Brandão e Judite Leal Costa para o reconhecimento das
causas atribuídas às dificuldades dos alunos encaminhados ao Núcleo de Apoio Psicossocial e
Inclusão (NAPSI). Pretende-se verificar se as condições socioeconômicas têm sido
consideradas determinantes ou potencializadoras das dificuldades em questão. Este trabalho
se apoia, portanto, em estudos acerca das necessidades especiais de aprendizagem, na
perspectiva de Grossi (2004), Andrade e Lima (2019), Mendonça (2008), Mantoan (2015),
entre outros. No entanto, propõe-se a investigar, a respeito daquelas, as decorrentes de
condições individuais, econômicas ou socioculturais dos alunos com diferentes perfis.
Trata-se de crianças de minorias linguísticas, étnicas e culturais; trabalhadoras; com
deficiência e com condições físicas, intelectuais, sensoriais diferenciadas e ainda as de grupos
desfavorecidos ou marginalizados. Convém incluir, entre tantas, os estudantes expostos a
práticas de ensino descontextualizadas e submetidas a professores de formação precária e
descontinuada. A coleta de dados deu-se por meio de pesquisa documental pelo acesso às
fichas de matrícula e documentos a elas anexados, além de entrevista semiestruturada
realizada com professoras das escolas mencionadas. A abordagem é qualitativa e se apoia nos
pressupostos teóricos e metodológicos da Análise de Discurso francesa, segundo as
postulações do linguista francês Michel Pêcheux (1997). Já os procedimentos metodológicos,
também fundamentados em sua obra, são aqueles propostos por Orlandi (2002). Para ela o
discurso é a mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social, assim torna
possível tanto a continuidade quanto a transformação do homem e da realidade em que vive.
Consideram-se, pois, as noções de sujeito, discurso, formações imaginárias, Formação
Discursiva (FD), interdiscurso e ideologia. Interessa-nos investigar como se constituem esses
sujeitos, quais as Formações Discursivas que atravessam os seus discursos acerca das
dificuldades dos alunos encaminhados ao Núcleo. Desse modo, as formações ideológicas em
que se sustentam assim como as suas formações imaginárias (imagens) sobre os alunos serão
verificadas. Os resultados da pesquisa apontam que a equipe pedagógica não dispõe de
protocolo ou orientação sistematizada para avaliação/encaminhamentos dos estudantes em
discussão. Ademais, não foi verificada participação das professoras (sala regular) e
coordenadoras pedagógicas em formação continuada voltada para o trabalho com tais alunos.
Observou-se que as formações oferecidas contemplam práticas comuns a todos os estudantes,
com ênfase nas avaliações externas. Nesse quadro, a relação entre dificuldade de
aprendizagem, vulnerabilidade social, diversidade e educação étnico-racial não foi percebida
em seus dizeres. Verifica-se, portanto, a enorme necessidade e importância de apoio do
NAPSI para o tratamento dessas questões no cotidiano escolar. Some-se a isso a construção
de saberes necessários a uma educação inclusiva em seu aspecto mais amplo.