O cenário onde se desenvolve esta pesquisa é a tricentenária capital mato-grossense (Cuiabá), na qual a paisagem sonora definida por Schafer (2001) é composta, sobretudo, por ritmos de apelo popular, como o rasqueado, o lambadão e o sertanejo, mas que também é — talvez paradoxalmente — o berço do festival Grito Rock, uma iniciativa do Espaço Cubo surgida em 2003. Esse festival é acolhido aqui como objeto de pesquisa por propiciar reflexões a respeito de como um evento “Fora do Eixo”, ou seja, independente e que se aproxima, de alguma maneira, do estilo underground (conceito entendido aqui como algo que fica abaixo da linha do subterrâneo) se apropria de estratégias da comunicação mainstream, não apenas para sobreviver, mas para crescer exponencialmente. Assim, o objetivo geral da pesquisa é analisar a relação do festival Grito Rock com o conceito de underground advindo de Gomes (2018) e verificar se, na contemporaneidade, o referido evento segue abaixo da linha do subterrâneo ou já ascendeu ao âmbito do mainstream. Com abordagem interdisciplinar, a pesquisa lança mão da metodologia do estudo de caso, para fazer o levantamento de dados, lançou-se mão da netnografia, pois ela, segundo seu criador Robert Kozinetts (2010), está adaptada às complexidades do nosso mundo social contemporâneo, mediado pela tecnologia. Este estudo se justifica, na medida em que, se percebe a escassez de estudos acadêmicos que evidenciem o festival que marcou toda uma geração, seja concordando, seja discordando das formas de atuação usadas pelos organizadores do festival e ainda deu início, posteriormente ao coletivo Mídia Ninja, uma nova forma de se fazer jornalismo, mas que aqui não será abordado em profundidade, por não ser foco do estudo. Os resultados indicam que o movimento estudado teve uma curva ascendente entre o período de 2003 e 2014, quanto à proporção e ao alcance local, nacional e mundial, apresentando aspectos relevantes que o inserem no contexto underground com características peculiares e aproximadas ao minimalismo, conceito com o qual se estabelece um breve diálogo. Assim, concluiu-se que, a partir do entrelaçamento dos saberes produzidos, diante das perspectivas analisadas, o festival Grito Rock não só perpassou o movimento underground como se caracterizou como forma de resistência e ressignificação de sentidos na esfera cultural e artística.