Resumo:
Estudos têm demonstrado que a autoeficácia influencia positivamente o desempenho e
aprendizagem de habilidades motoras em jovens saudáveis, e, em menor número, em indivíduos com
comprometimento neurológico. Entretanto, os efeitos dessa variável cognitiva na população idosa são
ainda inconsistentes. Com isso, o objetivo geral deste estudo foi descrever uma intervenção
fisioterapêutica por meio de um estudo de caso, incluindo a autoeficácia como forma de abordagem na
aprendizagem de habilidades motoras. Este estudo inclui três etapas fundamentais; uma revisão
sistemática da literatura, a avaliação da autoeficácia da participante durante o protocolo de reabilitação
fisioterapêutica e uma análise qualitativa do papel das emoções e autoeficácia no desempenho das
habilidades motoras da amostra de caso único. Após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa,
CAAE 46660721.1.0000.5281, procedeu-se a assinatura do TCLE, onde a participante, uma idosa de
78 anos, acometida por Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCI), fase subaguda inicial, aceitou
participar como voluntária de um protocolo de 34 sessões de intervenção fisioterapêutica
neurofuncional, 3x semanais, em seu domicílio. Para avaliação da autoeficácia elaborou-se um
Inventário de Avaliação da Autoeficácia na Fisioterapia (pré-tarefa) conforme proposto por Bandura
(2006). Em uma escala de 100 pontos onde “0” (absolutamente não sou capaz), “50” (sou um pouco
capaz) e “100” (sou totamente capaz), a participante classificou seu grau de confiança para quatro
atividades consideradas importantes para a independência funcional; virar-se na cama, sentar-se, ir para
a cadeira de rodas e ficar de pé. A escala PANAS também foi aplicada antes de cada sessão, e, logo
após cada sessão de treino, a participante respondia a questões de pensamentos sobre a prática. A
revisão sistemática da literatura incluiu a análise de dezesseis estudos. A soma da amostra investigada
nessses estudos consistiu de 736 pessoas, em sua maioria adultos jovens saudáveis, com excessão de
um estudo que incluiu 44 indivíduos com doença de Parkinson. Apenas um trabalho propôs a avaliação
da autoeficácia ao longo de oito sessões de prática, os demais, aconteceram em uma única sessão. A
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análise dos resultados dos estudos apontou que a autoeficácia influencia positivamente o desempenho
e/ou a aprendizagem de diferentes tipos de tarefas praticadas em contexto de laboratório de pesquisa.
Na segunda etapa, a avaliação da autoeficácia para as atividades treinadas pela participante evidenciou
grande variabilidade ao longo das sessões de intervenção. As atividades mexer o braço mais afetado e
virar-se na cama foram as que a paciente declarou menor autoeficácia. Sentimentos negativos como
medo e inquietude, e positivos, como determinada, foram os mais relatados pela participante.
Curiosamente, a atividade ficar em pé com ajuda foi que a participante apresentou maior autoeficácia.
A análise dos componentes sócio cognitivos presentes nas transcrições revelou três temas: experiência
direta, persuasão social e estados fisiológicos e emocionais. Dor, medo de sentir dor e medo de cair
foram os componentes que apareceram com maior frequência, inferindo que a interpretação da
autoeficácia pode ter sido fortemente influenciada por estados fisiológicos e emocionais negativos
nessa amostra de caso único, impactando a percepção de competência mesmo quando obtinha sucesso
no treino (experiência direta positiva). Espera-se com esse trabalho, colaborar para o desenvolvimento
de pesquisas de intervenção que utilizem estratégias sócio cognitivas, através do conceito da
autoeficácia de Bandura, na fisioterapia neurofuncional do paciente idoso, ampliando a maneira que
nós, profissionais do movimentos, abordamos o invidíduo idoso com disfunções neurológicas,
fornecendo maior qualidade de atendimento e resultados ótimos de recuperação motora funcional
nesses indivíduos.
Palavras-Chave:
autoeficácia, teoria social cognitiva, habilidades motoras, fisioterapia neurofuncional, envelhecimento.
Abstract:
Several studies have shown that self-efficacy positively influences the performance and
learning of motor skills in healthy young people, and, to a lesser extent, in individuals with
neurological impairment. However, the effects of this cognitive variable in the elderly population are
still inconsistent. Thus, the objective of this study was to describe a physical therapy intervention
through a case study, including self-efficacy as a way of approaching the learning of motor skills.
This study includes three fundamental steps: a systematic review of the literature, the assessment of
the participant's self-efficacy during the physiotherapeutic rehabilitation protocol and a qualitative
analysis of the role of emotions and self-efficacy in the performance of motor skills of the single case
sample. After approval by the Research Ethics Committee, CAAE 46660721.1.0000.5281, the
consent form was signed, where the sample, composed of a 78-year-old woman, affected by ischemic
CVA, subacute phase, agreed to participate as a volunteer in a protocol of 34 neurological
physiotherapy intervention sessions, 3x a week, at home. To assess self-efficacy, a Self-Efficacy
Assessment Inventory in Physiotherapy (pre-task) was prepared, as proposed by Bandura (2006). On
a 100-point scale where “0” (I am not capable at all), “50” (I am somewhat capable) and “100” (I am
totally capable), the participant rated her confidence level for four activities considered important for
functional independence; turn over in bed, sit up, get into a wheelchair and stand. The PANAS scale
was also applied before each session, and, right after each training session, the participant answered
questions about thoughts about the practice. The systematic review of the literature included the
analysis of sixteen studies. The sum of the sample investigated in these studies consisted of 736
people, mostly healthy young adults, except for one study, which included 44 individuals with
Parkinson's disease. One work proposed the assessment of self-efficacy over eight practice sessions,
the other studies took place in a single session. The analysis of the results of the studies showed that
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self-efficacy positively influences the performance and/or learning of different types of tasks
practiced in the context of a research laboratory. In the second stage, the assessment of self-efficacy
for the activities performed by the participant showed great variability throughout the intervention
sessions. The activities, moving the most affected arm and turning over in bed were the ones for
which the patient declared lower self-efficacy. Negative feelings such as fear and restlessness, and
positive feelings, as determined, were the most reported by the participant. Interestingly, the activity
of standing with assistance was the one that the participant showed greater self-efficacy. The analysis
of the socio-cognitive components in the transcripts revealed three major themes: direct experience,
social persuasion, and physiological and emotional states. Pain, pain-related fear, and fear of falling
were the components that appeared most frequently, inferring that the interpretation of self-efficacy
may have been strongly influenced by negative physiological and emotional states in this single-case
sample, impacting the perception of competence even when obtained success in training (positive
direct experience). It is hoped that this work will contribute to the development of intervention
research that includes socio-cognitive strategies, through Bandura's concept of self-efficacy, in
neurological physiotherapy, expanding the way this professionals, approach older people with
neurological dysfunctions, providing higher quality of care and optimal results of functional motor
recovery in these individuals.
Keyword:
self-efficacy, social cognitive theory, motor skills, neurological physiotherapy, aging.