O presente estudo tem como objetivo apresentar, a partir de uma leitura de o
Nascimento da tragédia (NT), uma leitura acerca da tragédia grega e da crítica de Nietzsche
ao racionalismo socrático, bem como apresentar seus efeitos. Nesta obra, nosso filósofo
apresenta o racionalismo de Sócrates como o maior responsável pela morte da arte trágica
helênica e o acusa de instaurar uma tradição metafísica que ecoou em grande parte nas
produções filosóficas da Europa moderna. Neste primeiro momento de seu pensamento,
Nietzsche aponta, em primeiro lugar, as condições para o surgimento da tragédia, formada
pela reconciliação entre dois instintos estéticos, o apolíneo e o dionisíaco. Depois, expõe o
modo como a ruptura com o pensamento trágico ocorreu: como a razão, o espírito
fundamentalmente otimista de Sócrates, matou a tragédia na antiga Grécia, ao desvalorizar o
instinto em virtude do pensamento racional. Assim, partindo de uma reflexão da Grécia
arcaica, que sempre lhe serviu de influência em sua crítica à grande tradição metafísica,
Nietzsche irá buscar uma retomada dos valores artísticos, tendo como base o drama
wagneriano e a dualidade conceitual schopenhaueriana da vontade e representação. Dando
ênfase a essa trama, o nosso trabalho se apresenta divido em três partes fundamentais: na
primeira parte, abordaremos as condições que tornaram possível a tragédia, ou seja, falaremos
do seu nascimento; na segunda parte de nosso trabalho, abordaremos a morte da tragédia e a
crítica de Nietzsche a Sócrates, o principal responsável por esta morte; na terceira parte,
finalmente, pensaremos o renascimento (die Wiedergeburt) da tragédia representado pelo
drama wagneriano, pela filosofia de Schopenhauer e pelo romantismo alemão. Sendo assim, o
seu nascimento se daria com o equilíbrio da tensão entre os instintos estéticos, dionisíaco e
apolíneo, que reconciliados, configuram a tragédia e sua morte se daria, então, com a
racionalização da arte com o advento do pensamento socrático, dando à luz a uma metafísica
racional que será colocada em questão em virtude de um (possível) renascimento vislumbrado
na união da palavra e da música no drama de Wagner. Nesse sentido, Nietzsche pretende
apontar os fundamentos morais da ciência e apresentar a arte como um modelo alternativo à
racionalidade.