A partir de observações sobre as práticas desenvolvidas na rotina pedagógica da Escola de Educação Infantil Francisco Rabelo de Sá, situada na cidade de Santa Rosa do Purus, Acre, e também sobre outros aspectos culturais presentes nas interações entre as crianças Huni Kuin e as demais crianças, e dessas com suas professoras, objetivou-se compreender como os diferentes discursos que constituem as relações estabelecidas nas práticas pedagógicas, formadas pelas diferentes linguagens (a oral, a escrita, as artes plásticas, a dança, a música, as histórias lidas e dramatizadas, dentre outras ), podem dar visibilidade e fazer emergir, ou não, a voz das crianças Huni Kuin (Kaxinawá). A metodologia utilizada é a análise dos discursos de base foucaultiana, porém, considerando que as análises previstas na pesquisa envolvem outros conceitos, além dos foucaultianos, dentre eles identidade, interculturalidade, entrelugares, resgataram-se teóricos que auxiliam nesses e em outros aspectos inerentes ao contexto. A pesquisa tem característica qualitativa com enfoque nos estudos coloniais. As categorias de análise envolvidas são: identidade, cultura/interculturalidade, poder e sujeito, as quais foram selecionadas em consonância com o que foi construído a partir dos estudos, e momentos de interação que se deram com a gestora da escola, coordenadoras, professoras, familiares das crianças Huni Kuin, ex-alunos do curso de Pedagogia e alguns representantes desses povos que residem na cidade de Santa Rosa do Purus. Quanto aos aspectos teóricos-metodológicos, o diálogo foi estabelecido com a produção de autores como Foucault (1955, 1979, 1995, 2000, 2010, 2013, 2014a, 2014b), Bauman (2001), Walsh (2013), Silva (1998), Candau (2008), Hall (1996, 1997, 2002, 2005) e Bhabha (1998) e com representantes dos povos indígenas, como Kaxinawá (2014), Baniwa (2019), dentre outros, utilizando, além de conversas informais, entrevistas semiestruturadas virtuais e presenciais gravadas, observações à dinâmica pedagógica da instituição selecionada. Além das informações produzidas no campo da pesquisa, foram analisados documentos sobre a educação infantil, como o Currículo de Referência Único do Acre (CRUA) para a Educação Infantil (ACRE, 2019) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN). Com o objetivo de compreender como se constituem as linguagens e outros aspectos culturais (de professores e alunos) presentes nas relações estabelecidas nas práticas pedagógicas da escola pesquisada, que tem as crianças Huni Kuin nela matriculadas, surgiram as seguintes questões: Como a escola se porta frente a essa hibridização que lhe é apresentada? Suas práticas pedagógicas favorecem ou não a visibilidade, valorização cultural das crianças indígenas e suas famílias, mais especificamente as crianças Huni Kuin? Tomando como base esses questionamentos, os resultados alcançados na pesquisa emergiram das observações e análises realizadas a partir das diferentes linguagens trabalhadas na rotina pedagógica da escola, o que tornou evidente que não há uma atenção dos educadores para as diferenças culturais das crianças Huni Kuin e seus familiares, assim como é incoerente a justificativa de que a língua é o principal fator de impedimento da interação das crianças Huni Kuin e de seus familiares. Acredita-se que esta pesquisa trará grandes contribuições para a interculturalidade no espaço escolar, pois, convida à Escola de Educação Infantil de Stª Rosa do Purus, Francisca Rêbelo de Sá, e demais escolas que compõem essa primeira etapa da educação básica, a fazerem do trabalho com as diferentes linguagens oportunidades para a livre expressão das crianças, promovendo interações que permita fluir os elementos característicos da identidade étnica dos povos Huni Kuin, bem como das demais culturas que atravessam os espaços da educação infantil. Acredita-se que assim será possível a disseminação de práticas de resistência nos espaços da educação infantil, corroborando para o rompimento dos silêncios e invisibilidade cultivada nas relações que envolvem os povos originários ao longo de nossa história.