Esta tese analisa narrativas elaboradas por (ou acerca de) haitianos(as) diaspóricos(as), destacando relações de subalternidade e resistência vinculadas a questões raciais e nacionais nos caminhos que unem Brasil e Haiti. Foram alinhavados como fontes de pesquisa, textos historiográficos, literários, jornalísticos e documentos oficiais produzidos acerca dos trânsitos diaspóricos desses sujeitos. Fontes que foram postas em relação com o acompanhamento e registro de diferentes situações vivenciadas e/ou narradas por seis homens e três mulheres com
quem pudemos conversar e gravar entrevistas. Esses registros foram importantes na compreensão de processos nos quais esses homens e mulheres diáspora produzem criativas formas de uso dos espaços, tendo por base o agenciamento de passados exemplares, a reformulação de narrativas religiosas e modos de tradução na luta pela sobrevivência e em busca de dias melhores. Nesta direção, nos inspiramos em intelectuais como Hall (2003) e Handerson (2015) para pensar a diáspora como processo de ressignificação identitária e espacial mediada
pela linguagem; Glissant (2005), Churata (s.d; 2013), Carpentier (1985) e Hurbon (1987) para compor um quadro das culturas concebidas como construções cambiantes de contatos rizomáticos, que reivindicam a crítica à estrutura do tempo e do espaço a partir de pequenos indícios; de religiosidades recompostas para narrar a história como poética de encontros, desencontros e relações; Trouillot (2016) e Orlandi (2007) para discutir processos de
silenciamento que têm apagado memórias de corpos, sujeitos e espaços; Antonacci (2014), Benjamin (1987) e Mbembe (2018) para a discussão acerca da permanência, tanto de processos de racialização (do tempo, do espaço e dos sujeitos) quanto dos modos de resistência que emergem em paisagens, religiosidades, palavras e corpos nas diásporas negras atuais; Agamben (2002) foi adotado enquanto crítica a projetos linguísticos de hierarquização da vida em escalas de valor ou desvalor que, entre outras práticas, legitimaram a escravização de povos e destruição
de culturas; Lepecki (2012) para analisar o refazer dos espaços pelo movimento dos sujeitos, na disputa com poderes gerenciados por instituições dos locais de passagem, acolhida ou destino. As análises apontam que as diásporas haitianas atuais são catalisadoras de denúncias inscritas em corpos racializados, que agenciam memórias, palavras e gestos contestatórios de um universo de injustiças que duram séculos. Esses corpos diaspóriocos haitianos interpelam seus interlocutores para que estes se posicionem diante das violências naturalizadas pela lógica do tempo linear, presente nos discursos do progresso, reivindicando para si o direito de pertencerem à humanidade; de reformularem os espaços com a escrita de suas ações. Com suas
palavras proféticas e enunciações do corpo, eles(as) alertam o tempo presente quanto aos perigos do racismo e da mercantilização da vida.