O objetivo desta tese é analisar como o espaço amazônico é construído em relatos de viagem de naturalistas britânicos do século XIX. A pesquisa é de cunho bibliográfico, tendo como fontes principais os relatos de viagem sobre a Amazônia dos naturalistas britânicos Alfred Russel Wallace (1822-1913), Henry Walter Bates (1825-1892) e Richard Spruce (1817-1893). Para tanto, buscou-se problematizar questões de linguagem e discurso, modernidade e colonialidade, discorrendo sobre construção do espaço amazônico em narrativas de viagem e de ciência enquanto um regime de verdade; relacionar imagens de floresta amazônica nos relatos de Alfred Wallace, Henry Bates e Richard Spruce, além de formas cartográficas de fabricação do espaço, evidenciando regularidades e exclusões promovidas por um saber dual e racializador; situar o papel da escrita ocidental, tendo como referência as operações de demarcação do espaço nos relatos de Alfred Wallace e Henry Bates, analisando seus procedimentos de inscrição, apropriação e encenação de um espaço-outro e; analisar de que modo o outro – espaço, corpo e saber – é constituído como desviante através do relato de Richard Spruce. Como ponto de partida teórico, no que diz respeito ao relato como construção espacial, sobre saber, discurso e escrita ocidental como fabricação, a operação historiográfica, espaço-outro, a pesquisa se fundamentou nas reflexões de Michel de Certeau (2011; 2014) e Michel Foucault (1979; 2007; 2008; 2020). De igual modo, dialogou-se com autores críticos da colonialidade e da racialização promovidas pelo eurocentrismo, tais como, Walter Mignolo (2017), Anibal Quijano (1989; 2018), Homi Bhabha (1998), Stuart Hall (2003; 2016), Mary Louise Pratt (1999), Ana Pizarro (2012) e Gerson Albuquerque (2016). A análise das obras permitiu observar que o saber dualizado e a racialização do espaço amazônico presentes na história natural e na cartografia, cristalizam, fixam a imagem de um espaço que é primitivo e não civilizado. A escrita moderna ocidental como prática discursiva se apropria, conquista e encena espaços por intermédio do uso de instrumentos que lhe são próprios: a ilustração/gravura, a fotografia, a transposição, a (re)citação, a tradução, a transcrição, dentre outros, estabelecendo as fronteiras entre o conhecido e o desconhecido, entre o eu e o outro. Como modo de ordenamento de um saber, a racialização de espaços, corpos e saberes instituiu limites entre designações opostas ou contraditórias que convivem lado a lado, em justaposição.