Na indústria de fibras de sisal (Agave sisalana PERRINE), o resíduo agroindustrial gerado após o
desfibramento das folhas representa 95% da matéria-prima inicial. Devido à escassez, até o momento,
de alternativas viáveis de aproveitamento, esse resíduo é descartado no meio ambiente em montantes
que alcançam toneladas anualmente. No entanto, pesquisas evidenciam que o resíduo de sisal é uma
fonte rica em compostos orgânicos com potencial industrial, caracterizando-se como um recurso
renovável valioso para a produção de insumos químicos. Dentre os compostos de interesse industrial
encontrados no resíduo de sisal, destacam-se saponinas, polissacarídeos, esteroides, triterpenos,
flavonoides e compostos fenólicos em geral. O canferol, um flavonoide de alto valor de mercado com
diversas atividades biológicas comprovadas, é particularmente relevante e possui ocorrência
predominante na espécie. Já sendo utilizado nas indústrias farmacêutica, nutracêutica e cosmética, o
canferol possui propriedades antioxidantes expressivas, sendo empregado na prevenção e tratamento
de diversas doenças, inclusive o câncer. A esquistossomose, doença causada pelo parasito
Schistosoma mansoni, é uma das Doenças Tropicais Negligenciadas mais conhecidas e continua a ser
prevalente entre as populações de baixa renda nos países em desenvolvimento, contudo, até o
momento, apenas uma opção medicamentosa está disponível para o tratamento dessa doença. Estudos
comprovam que o extrato de sisal possui atividade anti-helmíntica contra S. mansoni e atribuem tal
propriedade à presença do canferol, o que evidencia a irrelevância do desenvolvimento de técnicas
eficazes de extração e isolamento desse composto a partir do resíduo de A. sisalana. Entretanto,
devido à complexidade e aos altos teores de fibras e açúcares dessa matriz, a maioria dos flavonoides,
assim como o canferol, tendem em apresentar-se na forma glicosilada, tornando o processo de
extração e isolamento de compostos a partir de resíduos agroindustriais, um desafio. Nesse contexto,
a fermentação espontânea surge como uma alternativa de baixo custo e baixo ou nulo impacto
ambiental, pois tem como princípio a digestão dos açúcares e liberação dos compostos em sua forma
aglicona, aumentando exponencialmente a sua concentração, o que facilita o processo de isolamento.
Diante do contexto, o presente estudo objetivou comprovar a eficácia da fermentação espontânea no
enriquecimento de fenólicos e flavonoides no resíduo líquido de sisal, bem como avaliar a atividade
anti-Schistosoma in vitro e in vivo do canferol extraído do resíduo. A pesquisa foi dividida em dois
capítulos: 1) Enriquecimento de Canferol no Resíduo Líquido de Agave sisalana: Fermentação
Espontânea; 2) Obtenção de Canferol do Resíduo Líquido de Agave sisalana e Atividade AntiSchistosoma mansoni. No primeiro capítulo, a fermentação espontânea do resíduo de sisal foi
analisada a partir de 2 sistemas, aerobiótico e anaerobiótico, e monitorada por 10 dias, a partir do dia
zero, através de análises físico-químicas e espectroscópicas para avaliação dos parâmetros
estabelecidos. A eficácia da fermentação espontânea para o enriquecimento de canferol no resíduo
líquido de sisal foi comprovada através da observação do aumento significativo no teor de fenólicos
e flavonoides totais, no extrato obtido a partir do resíduo líquido de sisal, e diminuição acelerada dos
teores de açúcares no resíduo fermentado já nos primeiros dias. O aumento expressivo da
concentração do canferol foi comprovado através de Cromatografia em Camada Delgada (CCD) e
Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (HPLC-DAD). No segundo capítulo, o canferol foi isolado
através da associação entre as técnicas cromatográficas de CCD e Cromatografia Líquida em Coluna
Flash, que permitiu a otimização do processo. A confirmação da identidade e isolamento do flavonol
foi obtida por meio de análise em HPLC-DAD, espectrometria de massas e RMN. O canferol isolado
foi submetido a análise da sua atividade frente ao parasito Schistosoma mansoni, in vitro e in vivo,
sobre o qual demonstrou eficácia com a diminuição da carga parasitária, indicando o potencial do
canferol como terapia complementar à abordagem convencional no tratamento da esquistossomose.