A tese Gêneros discursivos em perspectiva diacrônica: uma análise dialógica do gênero notícia em periódicos da cidade de Cruzeiro do Sul (AC), de 1953 a 2021 realiza um estudo sobre o gênero discursivo notícia, tomando como fonte de pesquisa três jornais: O Juruá, Voz do Norte e Juruá Online, com o objetivo de identificar os traços de mudança e os que permaneceram ao longo do tempo no referido gênero, a fim de entender como ocorrem esses processos na dinâmica comunicativa, observando as relações existentes entre língua e sociedade, mesmo se tratando de um gênero menos suscetível a mudanças, haja vista que está condicionado a mais regras para a sua produção. Para tanto, ancora-se nos postulados teórico-metodológicos da Análise Dialógica do Discurso (ADD) e na concepção de funcionamento da linguagem, de Bakhtin e do Círculo, elegendo-se, especialmente, os conceitos de enunciado e gêneros discursivos. O primeiro, compreendido como um todo comunicativo indissociável das condições sociais dos sujeitos, não podendo ser considerado isoladamente apenas pela sua materialidade linguística; já o segundo se refere às formas de enunciados, que estão diretamente relacionadas às necessidades comunicacionais de determinada época e às intenções discursivas. Quanto à concepção de linguagem, pauta-se nas relações dialógicas existentes entre sujeito, língua e sociedade, entendendo que os formatos, os espaços, os sujeitos, as temporalidades e tudo mais que possa engendrar o uso efetivo da língua são constitutivos do discurso. Ao que se refere às fontes primárias da investigação, há a seguinte divisão do corpus: o de partida e o final. O corpus de partida é composto por 72 exemplares/edições, sendo 24 de cada jornal; o final, por sua vez, possui 18 notícias, com seis de cada periódico, as quais se constituem no objeto de análise. A pesquisa é norteada pelo questionamento central: Quais os aspectos preservados, os modificados, os apagados e os acrescentados no gênero notícia, ao longo do tempo?, que vem acompanhado de outras questões, a saber: Qual a relação do gênero notícia com o momento histórico e as condições sociais de cada jornal?; Que elementos linguísticos e extralinguísticos constituem os enunciados jornalísticos estudados nos espaços-tempos considerados na pesquisa?; Como ocorrem os processos de transformação no gênero estudado? Qual a relação das condições históricas e sociais com as mudanças operadas em relação ao gênero notícia? A partir dessas questões e dos pressupostos da teoria dialógica do discurso, quatro aspectos são considerados para direcionar o percurso analítico: 1. O estilo verbal do gênero, como as escolhas léxico-gramaticais (adjetivação e tempos verbais); 2. a relação informação/opinião; 3. as temáticas dos enunciados e as suas relações com as condições sócio-históricas de produção do gênero; e 4. processos de transformação do gênero. A análise, portanto, tem como foco o gênero do discurso notícia, observando, além das categorias linguístico-gramaticais, as discursivas, considerando as condições sociais, históricas e culturais da enunciação, em um tempo histórico compreendido em um espaço temporal de 68 anos (1953 a 2021). Ao estudar o gênero notícia em um determinado espaço social e em um período específico, defende-se a tese de que o referido gênero passou/passa por transformações ao longo do tempo, mas preserva em sua configuração os efeitos de informação, embora, conforme foi verificado, seja uma informação marcada pelo aspecto valorativo da linguagem, que desmistifica as intenções de imparcialidade e neutralidade do gênero, em uma tensão constante entre informar e opinar. Ao final das análises, pode-se afirmar que a notícia apresenta traços de mudança bem definidos, assim como configurações que ainda permanecem e que são capazes de identificá-la tanto no passado quanto no presente. Todavia, para além desses traços de mudança e permanência, o estudo demonstrou que o enunciado, para significar e atender às finalidades discursivas próprias, precisa ser avaliado na sua concretude, linguística e extralinguisticamente.