A tese teve como objetivo geral realizar uma cartografia de memórias do Daime na Colônia Cinco Mil, comunidade ayahuasqueira localizada na área rural do município de Rio Branco, Acre. Formada no limiar da década de 1970, sob liderança do seringueiro Sebastião Mota de Melo, a comunidade imprimiu marcas significativas no Daime, uma espécie de contracultura daimista. Como proposta teórica-metodológica, a partir de referências como S. Rolnik, G. Deleuze, M. Foucault e F. Süssekink, a cartografia aponta para a necessária problematização das narrativas, documentos e fontes. A cartografia como um pensar-fazer-sentir aberto, se fez como caminhadas pelo lugar, na companhia de escritos, documentos e dos mais de 20 (vinte) narradores que integraram a pesquisa, traçando comigo estradas, rotas, desvios, atalhos e trilhas narrativas, um mosaico polifônico de possibilidades de se contar as istórias do/no lugar: um coro de muitas vozes, um bailado com muitas fontes. Em textos orais e escritos, os narradores ressoam sobre movimentos, trajetórias de deslocamentos, encontros, fraturas, conflitos, buscas individuais e coletivas que fazem o lugar Colônia Cinco Mil existir, com seus saberes e sabores. Procurei comparar e cotejar versões, observar as lembranças e esquecimentos, os ditos e não ditos que vão constituindo territorialidades e fatos de memória. A perspectiva a partir do Acre e de sabor acre, na companhia de Albuquerque Jr., trouxe o gosto por uma versão menos adocicada das istórias do povo do Daime do padrinho Sebastião: uma cartografia acre. Na companhia de W. Benjamin, penso a produção das narrativas e a formação dos narradores a partir dos “lugares-do-entre” – as fronteiras entre a ciência e literatura, etnografia e história oral, istórias com i, como propôs o poeta J. Veras, as crônicas-lugar. Nesse percurso procurei investigar como a irmandade da Cinco Mil deu prosseguimento aos trabalhos espirituais e cotidianos a partir da saída do líder fundador e de grande parte dos moradores para a floresta e analisar como as tensões intracomunidade foram constituindo novas tessituras socioespaciais, atualizando a produção histórico-literária sobre o tema. O estudo procurou evidenciar como um conjunto de relatos inventam e reinventam o lugar como criação da linguagem, enquanto o ato de nomear e renomear os espaços, de contar e recontar as histórias, redimensionam os limites e fronteiras internas na Colônia Cinco Mil como um lugar narrado, com suas multiterritorialidades, Vila Carneiro e Colônia Luau.