A indústria da música é um ecossistema complexo e competitivo, e o cenário é ainda mais difícil para as profissionais mulheres ou de gênero dissidente atuantes no setor, das quais 84% cita já ter sofrido assédio moral ou sexual (BATISTELA et al., 2019). A brecha de gênero é um desafio econômico e social, não somente na indústria da música, e diversas iniciativas públicas e privadas mobilizam esforços para modificar o cenário nesta indústria criativa. Uma das iniciativas, com atuação há onze anos no país, é o Girls Rock Camp Brasil (GRCB). A atividade, destinada a meninas de sete a dezessete anos, acontece em Sorocaba, interior de São Paulo. No período de uma
semana, as crianças se organizam em bandas (aqui entendido como bandos) e realizam tarefas musicais e comunicacionais, tais como a prática ou aprendizagem de noções básicas de um instrumento (à escolha entre bateria, baixo, guitarra, teclado e vocal), a composição de uma música (letra, arranjo, melodia), ensaios e uma
apresentação ao vivo, além da criação de um nome, logotipo, cartaz e figurino para o grupo. O projeto, com capacidade de mobilização de centenas de pessoas voluntárias, esgotamento rápido de vagas e motivo de muitos comentários nas redes sociais, chama atenção pela comoção que gera. Devido a este potencial provocativo, esta
pesquisa se propõe a contribuir para a divulgação do Girls Rock Camp Brasil ao especular e fazer provocações relativas a questões de gênero na indústria da música, materializadas como produtos especulativos. Tais especulações são feitas utilizando a abordagem projetual do design crítico especulativo (DUNNE; RABY, 2013) para gerar os produtos, que utilizam, em suas concepções, aproximações entre o GRCB e a máquina de guerra, conceito filosófico proposto por Gilles Deleuze e Félix Guattari (1997b).