Introdução: A disbiose intestinal parece desempenhar um papel importante em
diversas doenças imunomediadas, havendo um interesse crescente em compreender a
influência do microbioma intestinal na doença psoriásica.
Objetivos: Estudar o microbioma intestinal em pacientes com doença psoriásica
grave em comparação com indivíduos sem psoríase. Em paralelo, avaliar as
diferenças do microbioma intestinal de indivíduos portadores de psoríase, com e sem
doença articular associada. Por fim, avaliar o microbioma dos indivíduos do grupo
controle, diferenciando-os quanto a história positiva de psoríase em parentes de
primeiro grau.
Métodos: Estudo tipo caso controle, onde foi realizado sequenciamento do gene 16S
rRNA V3/V4 e análises bioinformáticas com o DNA total extraído de amostras de
fezes de 30 pacientes com doença psoriásica grave e 30 controles, pareados por idade
e sexo e pertencentes à mesma localização geográfica. A classificação de gravidade
respeitou os critérios do consenso, sendo considerados graves aqueles com superfície
corporal acometida acima de 10% e/ou escore de PASI maior que 10 e/ou
questionário DLQI maior que 10.
Resultados: Foram estudados 60 indivíduos. Não se documentou diferença em alfa
diversidade entre os grupos (p > 0.05). Entretanto, a análise da diversidade beta do
microbioma intestinal mostrou diferentes agrupamentos entre os pacientes portadores
de psoríase quando comparados aos controles (p = 0.031). A relação
Firmicutes/Bacteriodetes (F/B) foi maior nos expostos (p = 0.05). A abundância
diferencial ajustada mostrou aumento da expressão do gênero Sutterella (p < 0.01) e
da espécie Sutterella wadsworthensis (p < 0.05) no grupo com psoríase. Quando
comparados pacientes com e sem doença articular, não foi possível documentar
diferenças em termos de alfa ou betadiversidade. Entretanto, pacientes com artrite
psoriásica estabelecida apresentaram maior expressão do gênero Bacterioides (p =
0.02), além da espécie Bacteriodes uniformes (p = 0.03). Não foi identificada
qualquer diferença relevante entre os controles, quando comparados indivíduos com e
sem história familiar de psoríase.
Conclusões: Foi possível demonstrar um microbioma intestinal diferente entre os
portadores de doença psoriásica grave, quando comparados aos controles sem
psoríase. Verificou-se uma maior expressão, significativa, do gênero Sutterella e da
espécie Sutterella wadsworthensis entre os portadores de doença psoriásica, podendo
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representar uma marca da disbiose relacionada à esta doença. Em paralelo, verificou-
se diferenças estatísticamente siginificativas entre pacientes com doença articular,
sendo, porém, uma marca nestes pacientes a maior expressão do gênero Bacterioides
e da espécie Bacteriodes uniformes. Cabe destacar que a razão F/B foi inferior nos
expostos. Achado não inédito, porém contrário a maior parte das publicações onde se
demonstra predomínio do filo Firmicutes entre doentes. Do mesmo modo, redução de
Akkermansia e Ruminoccocus, previamente relacionados à doença psoriásica, não
foram verificados. Talvez por baixa leitura em ambos os grupos. Por fim, não houve
diferença naqueles indivíduos com história familiar de psoríase em parentes de
primeiro grau, em termos de microbioma intestinal. Este trabalho é um dos poucos
estudos brasileiros e traz novas evidências sobre microbioma e psoríase.
Consideramos que o microbioma merece atenção, especialmente porque traz
diferentes oportunidades de intervenção, embora ainda existam alguns pontos a serem
confirmados com estudos prospectivos.