O estabelecimento do microbioma intestinal começa no nascimento e tende a se tornar estável a medida que o animal atinge a maturidade, uma vez que a maioria dos fatores que induzem essas mudanças já ocorreram. A fase de crescimento é uma janela crítica para a estabelecimento da microbiota comensal, visto que é o período mais sensível a potenciais desafios. Além disso, os filhotes apresentam necessidades nutricionais e calóricas diferentes dos cães adultos. Essas diferenças na composição nutricional da dieta, associadas ao sistema gastrointestinal em desenvolvimento, podem influenciar na eficiência da digestão, estabelecimento da microbiota, e produção de metabólitos fermentativos no intestino. O objetivo do estudo foi avaliar o efeito da idade e do consumo alimentar nos coeficientes de digestibilidade aparente (CDA) da dieta (in vivo e in vitro), microbioma e metabólitos de fermentação intestinal e características fecais ao longo do crescimento de cães. Para isso, foram realizados os experimentos 1 e 2. Os cães foram alimentados com a mesma dieta seca extrusada durante todo o estudo. No experimento 1 foram utilizados 8 cães da raça Beagle aos 2, 5, 8, 11 e 14 meses de idade. Houve redução do CDA da matéria seca (MS), extrato etéreo (EEA) e EM dos 2 aos 14 meses de idade (P<0,05). Houve aumento no CDA da proteína bruta (PB) dos 2 aos 14 meses de idade (P<0,05). Os valores estimados in vitro se aproximaram dos observados in vivo, exceto para matéria orgânica (MO). A matéria seca fecal (MSf) e o escore fecal foram menores e a produção fecal foi maior nos cães mais jovens, em relação aos mais velhos (P<0,05). Houve aumento na concentração fecal de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) e indóis e redução nos ácidos graxos de cadeia ramificada (AGCR) dos 2 aos 14 meses de idade (P<0,05). Os cães com 2 a 5 meses de idade apresentaram maior abundância relativa fecal dos gêneros Streptococcus e Escherichia coli e menor abundância de Turicibacter e Peptacetobacter (P<0,05). No experimento 2, foram utilizados 12 cães da raça Beagle e avaliados dois grupos experimentais: cães adultos com o consumo (g/dia) de adulto (CA = 130 × peso0,75) e cães adultos com o consumo de filhote (CF = 210 × peso0,75). Houve redução do CDA da MS, MO, PB e EM em cães CF quando comparado aos cães CA (P<0,05). A MSf e o escore fecal foram maiores e a produção fecal foi menor nos cães CA, em relação aos cães CF (P<0,05). Observou-se maior concentração fecal de amônia, AGCR totais e putrescina nos cães CF em comparação aos cães CA (P<0,05). Os cães do grupo CF apresentaram maior abundância fecal de Streptococcus e menor de Blautia, em relação ao grupo CA (P<0,05). Portanto, os CDA da dieta, o microbioma e metabólitos de fermentação intestinal são alterados tanto pela idade quanto pelo consumo alimentar, sugerindo que a microbiota se estabiliza a partir dos 8 meses de idade. Esses resultados permitem estabelecer estratégias de manejo nutricional para otimizar a digestibilidade e a funcionalidade intestinal em cães ao longo de seu desenvolvimento.