Atualmente, o câncer é uma das principais causas de mortes globais. No entanto, os
tratamentos dessa enfermidade, apesar de eficazes, apresentam baixa seletividade e
provocam efeitos colaterais adversos aos pacientes. Diante deste cenário, este
trabalho tem por objetivo desenvolver um dispositivo polimérico multicamada
responsivo à pH, visando potencializar a entrega do fármaco quimioterápico 6-
mercaptopurina (6-MP) nas imediações do tumor. Para tal, um suporte de poli(ácido
lático) (PLA) formado por duas peças (uma porosa – parte A e uma barreira difusional
– parte B) foi impresso pela técnica de deposição de material fundido (FDM).
Posteriormente, cerca de 0,13 mL de uma solução de 2% (p/v) de quitosana (QUI),
0,3% (p/v) de 6-MP e ácido acético diluído, foi adicionada ao sistema impresso para
formar um fino filme de QUI/6-MP entre camadas de PLA, empregando-se a
metodologia de evaporação de solvente. Os compostos puros (filamento de PLA, pó
de QUI e pó de 6-MP), bem como os elementos produzidos (filmes de QUI e QUI/6-
MP, e os dispositivos, vazio – DISPPLA, de única camada – DISP6MP e de dupla
camada – DISP26MP), foram caracterizados pelos métodos de Espectroscopia no
Infravermelho por Transformada de Fourier (FTIR), Espectroscopia por Energia
Dispersiva (EDS), Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV) e Difração de Raios-X
(DRX), para avaliação química, estrutural e morfológica desses materiais. Além disso,
foram realizados ensaios de liberação, em triplicata, dos sistemas de única camada
(DISP6MP) em soluções tampão de fosfato de diferentes pHs (7,2, 6,4, 6,0 e 5,0), sob
temperatura de 37°C, agitação de 70 rpm e durante 24 horas. Esses dados
experimentais foram comparados com os modelos matemáticos de ordem zero,
Higuchi, Ritger-Peppas e Peppas-Sahlin. Ademais, realizou-se um ensaio de
permeabilidade com solução de azul de metileno e aparato próprio, visando verificar
o funcionamento da barreira criada.. Para mais, foi possível comprovar a presença do
medicamento na camada interna dos dispositivos, verificando-se também um possível
encapsulamento da droga. Para os ensaios de liberação, os valores acumulados
obtidos foram de 60,4% (pH = 7,2), 80,1% (pH = 6,4), 56,3% (pH = 6,0) e 92,3% (pH
= 5,0), corroborando para a hipótese do dispositivo fabricado ser responsivo à pH,
possivelmente pelo comportamento da quitosana em meios ácidos. Ainda neste
contexto, o modelo mais ajustado para todos os ensaios foi o de Ritger-Peppas, com
coeficientes de correlação próximos a 0,99 em sua maioria. Esse resultado indica que
a liberação do fármaco foi controlada tanto pela difusão quanto pelo inchamento das
cadeias poliméricas. O ensaio de permeabilidade comprovou a eficácia da barreira
difusional e assim, colabora para a confirmação da liberação unidirecional do sistema
criado. Desta forma, o dispositivo de liberação fabricado neste estudo, torna-se uma
opção promissora no tratamento de tumores sólidos pelo seu caráter responsivo e
direcional.