Esta tese problematiza a formação linguística de professores alfabetizadores a partir de minha escrita (auto)biográfica. Os contextos de baixos índices de alfabetização no Brasil e a disputa por hegemonia política de divergentes paradigmas no campo da alfabetização, tomados como elementos de reflexão, colocam em evidência a necessidade de se (re)pensar os modos pelos quais a formação docente de professores alfabetizadores vem se configurando ao longo da história da educação brasileira. Ao tomar minhas memórias formativas e experiência docente enquanto objeto de estudo coloco em suspeição as ideias que tenho sobre alfabetização a partir das perguntas de pesquisa: I) Qual a percepção que tenho sobre minha formação linguística? II) Como construí os saberes linguísticos que aciono em meu fazer pedagógico? III) Como minhas experiências operam sobre a construção de meus saberes linguísticos? Para responder a essas problemáticas optamos pela metodologia de pesquisa-formação, na qual sou a própria fonte, através do método (auto)biográfico tomado como dispositivo de pesquisa e formação para ressignificar minha formação linguística por meio da articulação entre o narrado e o enunciado em pesquisas sobre alfabetização. Inspirada em Bragança (2012) produzi uma (auto)biografia educativa composta por duas narrativas, na primeira narro meus processos formativos e na segunda minha prática docente, em um recorte temporal de quinze anos. Quanto à fundamentação teórica, este trabalho apoia-se, em um olhar rizomático, nos conceitos de formação docente, regimes de verdade e genealogia de si, a partir de Morin (2005), Pineau (1988, 2006, 2010, 2014), Nóvoa (2010), Bragança (2012) e Foucault (1977; 2006; 2010; 2011; 2014) em diálogo com a historiografia da alfabetização de Mortatti (2000; 2010; 2016; 2019; 2023). Para as análises, fizemos a escolha pela abordagem interpretativista apresentada por Lopes (2019), para formular os entendimentos propostos no estudo. As reflexões (auto)biográficas permitiram a identificação/compreensão de que: a formação inicial não contemplou de forma satisfatória os saberes linguísticos necessários para alfabetizar; as demandas/contextos da sala de aula de alfabetização me direcionaram para um processo autoformativo em busca de ampliar meus conhecimentos linguísticos; a (re)construção dos conhecimentos linguísticos deu-se pela articulação entre os polos formativos (personalização, socialização e ecologização). Tais entendimentos, quando relacionados aos sentidos historicamente atribuídos à alfabetização, desvelam para mim que o paradigma construtivista agiu em minha ecoformação enquanto “regime de verdade” que, além de instaurar determinadas formas de ser alfabetizadora, também contribuiu para a pouca contemplação de minha formação linguística. Foram os processos autoformativos que privilegiaram a ampliação do conhecimento linguístico e me levaram à concepção de alfabetização enquanto processo multifacetado que requer, no fazer docente, a articulação entre os diferentes saberes e fazeres da alfabetização. A pesquisa evidencia a importância de uma formação linguística de qualidade para professores alfabetizadores e a necessidade de reconfigurar os currículos dos cursos de pedagogia e os programas de formação, para que melhor contemplem os conhecimentos linguísticos. A partir da reflexão (auto)biográfica, a tese aqui defendida é de que historicamente a formação docente dos professores alfabetizadores tem validado discursos científicos que além de fragmentar os saberes, pouco tem contemplado as reais necessidades formativas dos docentes, sobretudo a sua formação linguística, que é sucumbida por uma formação generalista/tecnicista que não reconhece/prioriza o professor alfabetizador, enquanto professor de língua materna, expondo-lhe a teoria e método do momento, validado em relações de poder que objetivam fabricar subjetividades docentes. Por fim, a escrita (auto)biográfica apresenta-se como uma possibilidade para outros professores alfabetizadores refletirem sobre a própria formação docente para reconfigurarem seus lugares de atuação profissional e ressignificarem seu agir professoral.