Inspirada pela força política e poética de La luna, el viento, el año, el día da escritora, ensaísta e crítica literária chilena Ana Pizarro (1994), com esta tese, almejo produzir uma escrita posicionada na noção de literatura memorialística (Figueiredo, 2017), transitando na busca de tecer um texto que possibilite pensar formas outras, tramas outras, narrativas outras, ancoradas em fatos de memória (Didi-Huberman, 2015). Tramas e narrativas
outras, tecituras de espaços/tempos distintos pautadas por palavras “das pessoas da pessoa” que habitam em mim (Hampaté Bá, 1981), que me tornam um sendo (Glissant, 2005) contingente, em deslocamentos físicos e simbólicos entre a cidade de Fortaleza, banhada pelo Atlântico, e as cidades de Cruzeiro do Sul e Rio Branco, respectivamente, banhadas pelos rios Juruá e Acre. Um sendo em trânsitos no descontínuo de ambiências assimétricas e violentas, mas também acalantadas pela vivência e todas as revivências que propiciaram e propiciam a escrita deste texto. Uma escrita que propõe deslocamentos porque marcada pelo errância e pelo transbordamento: antes um texto poético-literário do que um texto acadêmico. Ao longo de todo o estudo, tomo a literatura como um campo de possibilidades para a produção de outros imaginários, para criar, para sonhar a fratura ou para romper com uma universalidade que se alimenta do apagamento ou silenciamento das múltiplas formas de existências, geralmente, desordenadoras do universal e sua lógica indivisa da verdade única, da razão totalizadora; existências que, por sua potência e imprevisibilidade, são empurradas para as margens ou comprimidas a lugares de invisibilidade e inexistência. A partir dessas premissas e atravessada por um passado que se projeta em minha escrita com as cores, sons, odores e sabores do presente, o tempo da memória (Sarlo, 2007), caminho premida por algo parecido com aquilo que Benjamin designou como o lugar no qual é possível deter-se, no qual é necessário demorar-se e perder tempo para que seja possível jogar com o campo de luta e embate do simbólico, inventar e reinventar o passado, abrir novas gretas que deixem vazar os sons e as marcas daquelas e daqueles que foram sumariados pelas violências dos que sempre buscam apagar, jogar nas margens, fazer esquecer as existências de milhares se pessoas e humanidades. Esquecimento imposto com base na lógica de narrativas totalizantes e totalitárias. Em síntese, esta tese se constitui como um texto rememorativo, um limiar e um convite ao jogo com o onírico, com o desejo e com a imaginação a fim de inventar imaginários outros, escritas-memórias tecidas para confrontar a tradição dos vencedores (Benjamin, 2013) marcada pela lógica da glorificação de heróis que nos adestram à imitação, à cegueira e a toda uma apatia ou uma não atuação no presente, mantendo a dócil aceitação e repetição de uma herança que aprisiona, que impede a transformação, que mantém num espaço cruel de estancamento a lógica de descarte e extermínio dos que são catalogados como abjetos, os vencidos, aquelas e aqueles que são fabricados como lixo, escória, detritos, inconvenientes, descartáveis.