O presente trabalho tem como objetivo geografar a atuação da contracultura punk do
Recife, ou seja, analisar, descrever e destrinchar o movimento punk sob a luz da ciência
geográfica, seus territórios e territorialidades; relatando sua dinâmica e trajetória –
história, características socioeconômicas de seus integrantes, militância, concepções de
mundo, produção, ideologia, discurso, sociabilidade, conflitos e o papel da música punk
no contexto desses grupos. Neste ensaio, retoma-se o surgimento da cena punk brasileira,
inserida no fervilhante despontar de contraculturas no mundo, fomentadas por
movimentos políticos reivindicatórios e sociais, atuantes nas décadas de 1960 e 1970.
Para examinar a formação do punk no Recife e descrever seus espaços e geossimbolismos,
foram coletados dados de 1982 a 2023. À luz de teóricos como Mafessoli (1987),
Bonnemaison (1993) e, principalmente, Haesbaert (2004) ampliou-se a ótica sobre as
variadas simbologias e discursos que constituem o ideário punk, e como a práxis da
contracultura se deslocou do centro da capital pernambucana para ganhar as casas, as
calçadas, esquinas e os bairros da periferia do Recife, externando diferentes usos,
conflitos, retóricas e apropriações físico-materiais e simbólico-imateriais dessa tribo
urbana. O acareamento de diferentes gerações de punks ratifica esta contracultura como
locus de companheirismo, defesa e altruísmo; além de palco onde se desenvolve uma
prática educativa política racional e ética, o que contraria a visão simplista da mídia e de
atores externos ao cenário punk, já que muitos dos resultados expostos apontam para
indivíduos que adquiriram criticidade e tomaram ciência da realidade que os cercava a
partir da adesão ao movimento.