O desenvolvimento do sistema visual depende da formação de conexões precisas mediada pela atividade elétrica glutamatérgica e colinérgica. Atividade elétrica alterada implica mudanças sinápticas, podendo resultar em plasticidade estrutural. Esses eventos podem ser regulados reciprocamente por proteínas imunes e mielinização, de modo que alterações dos seus conteúdos promovem prejuízo no refinamento das conexões. Modelos de neuroinflamação, como injeção intraocular de zimosan ou da citocina pró-inflamatória IL-2, ou ainda a desmielinização inflamatória induzida pela dieta com cuprizona podem ser utilizados para estudar as consequências da neuroinflamação e/ou desmielinização em distintos fenômenos do SNC. Assim, investigamos o efeito desses modelos na plasticidade retinofugal, e os mecanismos neuroquímicos envolvidos. Ratos Lister Hooded receberam injeção intravítrea de IL-2 (156U/ μL) ou zymosan (60,5ug/uL) no DPN 10 ou 21 e foram eutanaziados no DPN14 ou 28. Camundongos C57BL/6 no DPN 42 foram alimentados por 3 ou 5 semanas com 0.2% de cuprizona misturada à ração. Injeção de IL-2 induziu, na retina em 24h, aumento da expressão de Iba-1, redução do conteúdo da subunidade β2 do nAChR, concomitantemente à redução do produto gênico sensível a atividade, Egr-1, e da PSD-95, indicando enfraquecimento da atividade através da supressão colinérgica, com retração de contatos sinápticos. Além disso, a injeção de IL-2 reduziu após 96h de sobrevida o conteúdo das subunidades de AMPAR e NMDAR, GLUR2 e NR2B, paralelamente à redução da atividade da Acetilcolinesterase. No entanto, o conteúdo de Egr-1 e PSD-95 estavam inalterados, sugerindo que prejuízos sobre a atividade glutamatérgica foram contrabalançados pelo aumento colinérgico. Paralelamente, injeção intraocular do traçador HRP mostrou que IL-2 induz arborização retinotectal para regiões ectópicas, como resultado das alterações retinianas. Similarmente, inflamação intravítrea com redução de TNF-α induzida por zimosan, promoveu espalhamento retinotectal dentro e ao final do período critico. O modelo de dieta com cuprizona não alterou os níveis de RNAm para MBP e PLP do nervo óptico, mas reduziu os seus niveis no dNGL, CS e CC após tratamento, indicando desmielinização dessas estruturas. Neuroinflamação foi induzida no dNGL após dieta com cuprizona observada por meio de expressão de Iba-1 e aumento do RNAm para iNOS, TNF-α, COX-2 e GFAP. Alterações pré-sinápticas no dNGL foram detectadas pelo aumento de vGLUT-2 após o tratamento com cuprizona, e pós sinápticas, pelo aumento do RNAm para NR2B e do seu conteúdo após 5 semanas de tratamento, sem modulação de NR2A. De fato, aplicação do antagonista do NR2B em fatias ex-vivo contendo o dNGL mostrou que seu componente no potencial de campo era maior após tratamento com cuprizona, aumentando a razão NR2B/NR2A. Além disso, o neurotraçador CTB injetado intraocularmente mostrou redução da segregação binocular no dNGL após 5 semanas de ingestão de cuprizona, indicando que as mudanças sinápticas induzidas pela desmielinização inflamatória nos animais tratados com cuprizona, induziu expansão de fibras retinogeniculadas no adulto. Em conjunto, os dados sugerem que presença de componentes inflamatórios em estruturas visuais subcorticais interfere no ordenamento de conexões retinofugais independente do seu estágio de maturidade, via alterações glutamatérgicas ou colinérgicas.