10. Nas últimas décadas, temos observado o surgimento de um campo literário juvenil autônomo, que conta cada vez mais com um sistema próprio de produção, circulação e consumo. Deste modo, cabe à universidade proceder à leitura crítica dessa produção, almejando destacar, em meio à enxurrada de títulos publicados para atender a escola e o mercado, aqueles que podem ter sua qualidade estética atestada. Acreditamos, porém, que essa crítica não deva se encastelar academicamente, mas contribuir para as reflexões acerca dos encontros e desencontros entre livros e leitores, especialmente aqueles em idade escolar. Por isso, esta tese se produz na confluência entre a crítica, a recepção e o ensino, partindo do pressuposto de que a ficção juvenil se define pelo duplo destinatário inscrito nos textos e paratextos: o jovem que lê (por prazer ou obrigação) e o adulto que legitima. Propomo-nos, assim, a situar o advento da literatura juvenil, em especial a narrativa de ficção, enquanto realidade editorial, escolar e literária, em um movimento mais amplo de transformações sociais. Apoiados nos conceitos de sistema literário de Antonio Candido (2000) e Zohar Shavit (1986) e campo literário de Pierre Bourdieu (1996, 2009), procuramos delinear os fatores extraliterários que levaram à formação, no nosso país, de um (sub)sistema literário juvenil autônomo. Para fundamentar teoricamente tanto as análises literárias do corpus quanto a interpretação dos dados sobre a recepção das obras por seus leitores-alvo, tomamos por base a Estética da Recepção (JAUSS, 1979) e a Teoria do Efeito (ISER, 1996). Do leitor virtual e teórico tentamos, pois, nos aproximar do leitor empírico, real. Seis narrativas de dois autores contemporâneos para jovens foram interpretadas por seus duplos destinatários (a pesquisadora e os jovens do segundo segmento do Ensino Fundamental com quem trabalha em uma instituição pública de Ensino Básico), de forma que pudéssemos tecer alguns comentários sobre a recepção individual das obras de Jorge Miguel Marinho, autor mais confortável com rótulo juvenil de sua produção, e Gustavo Bernardo, autor mais reticente em relação ao enquadramento de seus textos nesta categoria específica. A dupla leitura possibilitou, assim, que enveredássemos por dois caminhos distintos, porém complementares: o da crítica acadêmica, essencial para a legitimação dos autores e de suas produções no interior do campo juvenil, mas nem por isso menos importante para dar visibilidade a eles também fora do subsistema; e o da formação do leitor literário no segundo segmento do Ensino Fundamental, tendo em vista a negligência com que a universidade costuma olhar para a presença da leitura literária nesta etapa do ensino, por conta da marginalização da produção feita para jovens no meio acadêmico enquanto realidade literária.