Como sabemos, a Educação do Campo passou a ser discutida, a partir da Constituição Federal de 1988, cuja discussão foi intensificada com a Primeira Conferência Nacional por uma Educação Básica do Campo, realizada em Luziânia (GO), em 1998. Essa conferência teve grande relevância para a Educação do Campo por priorizar o debate sobre o direito dos sujeitos que residem no campo no que concerne às políticas públicas e ao respeito pela diversidade desses sujeitos. Contudo, sabemos também das dificuldades vividas pelo campo no tocante à Educação Básica; o que nos motivou a compreender melhor essa realidade. Este trabalho, portanto, objetiva analisar a prática pedagógica das professoras das classes multianos de Pau dos Ferros/RN. A investigação partiu da seguinte questão de estudo: De que modo os professores desenvolvem suas práticas, considerando as especificidades das classes multianos? Assim, adotamos como abordagem metodológica a concepção da pesquisa qualitativa. As discussões e encaminhamentos acerca da proposta metodológica da pesquisa tiveram sua ancoragem teórica nas pesquisas de Caldart (2004, 2011), Tardif (2008), Rocha e Hage (2010), Fernandes (1999), Souza (2012), entre outros teóricos que discutem a temática em estudo. A pesquisa foi realizada nas quatro escolas com turmas multianos, localizadas na zona rural do município de Pau dos Ferros RN: Unidade de Ensino XII, Narcísia Amélia do Nascimento; Unidade de Ensino VIII, José Alves Pereira; Unidade de Ensino V, Francelino Granjeiro; e Unidade de Ensino XVIII, Manoel Chagas de Aquino. Optamos por alguns instrumentos investigativos inerentes à pesquisa qualitativa para a construção dos dados, tais como: observação em sala de aula, entrevista semiaberta com professores, supervisor escolar e gestor escolar, estes lotados na Secretaria de Educação do município. Através da entrevista com os sujeitos, foi possível compreendermos a concepção de Educação do Campo dos entrevistados, como também a prática pedagógica que permeia o ensino nas classes multianos, já que um único professor leciona para uma diversidade de anos, em uma mesma turma. A pesquisa apontou que as professoras sentem dificuldades para lecionar nessa modalidade de ensino, em virtude de vários fatores que permeiam essas escolas, dentre eles os níveis de aprendizagens diferenciados; porém, apesar dos obstáculos, as professoras ainda conseguem alfabetizar as crianças. Destacamos também o distanciamento da equipe pedagógica; a ausência do Projeto Político Pedagógico, como também a falta de formação docente específica e continuada; o descrédito por parte dos pais com relação ao ensino e aprendizagem dos filhos, em virtude da multisseriação e, ainda, o deslocamento das crianças do campo para a cidade. Assim, devemos ressaltar que todos esses elementos comprovam que não estamos falando de “escolas do campo” e sim de “escolas no campo”, ou seja, em Pau dos Ferros, não existem escolas do campo e sim escolas que reproduzem os modos de vida urbanos, porém localizadas na zona rural. Portanto, compreendemos e sentimos a necessidade de aprofundarmos nossas reflexões acerca da prática pedagógica nas classes multianos, buscando verticalizar nossos estudos acadêmicos, e incluindo essa temática numa perspectiva de que é preciso acreditar que o campo é um espaço vivo, onde os sujeitos podem lutar, compreendendo a dinâmica de viver, em cada território ocupado.