Tecer uma pesquisa inserida na pluralidade de saberes, fazeres e seres presentes na doutrina do Daime constitui uma experiência desafiadora. No presente estudo, adotando como referencial teórico metodológico os Estudos Culturais, conforme propostos por Raymond Williams (1979, 2011) e Stuart Hall (2003), realiza-se inicialmente um exercício de desnaturalização de sentidos, destacando-se as lutas presentes na linguagem, nos discursos sobre o Outro. No caso, discursos sobre as Amazônias, seus povos e culturas, incluindo-se aí os usos da Ayahuasca (com seus muitos nomes). No que diz respeito às doutrinas dos Mestres Irineu, Daniel e Gabriel nota-se que o diálogo entre grupos daimistas e hoasqueiros, pesquisadores e o Estado, em alguns casos, faz surgir inventários fixos, fortalece modelos hierarquizados de pertencimento cultural, de discursos para a nação; coisifica e silencia as pessoas, acirra cisões internas, folcloriza as práticas. Diante do perigo de esvaziamento da quase inexprimível experiência de mulheres, homens, crianças e anciões com o Daime de Mestre Irineu, a pesquisa sofre uma modulação tonal e aproxima-se da pessoa, da vida, da voz de Luiz Mendes. Uma voz que ressoa no interior e a partir da doutrina do Daime, de êxtases místicos, de contextos amazônicos. Aproxima-se de suas memórias sem arquivos, memórias ancoradas em seu corpo (ANTONACCI, 2014) e da voz poética que desse corpo emana, suas performances, suas artes verbais (ZUMTHOR, 2010). Aqui o exercício subjetivo, contraditório e desafiador da produção do documento oral com as múltiplas traduções que ele suscita (PORTELLI, 2010, 1997). Assim, enfrenta-se o desafio de traduzir a voz viva de Luiz Mendes; suas memórias narradas, também vivas; seus saberes continuamente atualizados, para um texto acadêmico com seu formato gráfico e fixo, procurando trazer à tona os ecos de um artista da voz em seu ofício manual que constitui a arte de narrar (BENJAMIM, 1994). E traduzir, ainda, ao que essa produção verbal remete. Olhando pelas lentes da circularidade de culturas, da Poética da Diversidade (GLISSANT, 2005) da estética diaspórica (HALL, 2003) e da epistemologia da Ayahuasca (ALBUQUERQUE, 2011) almeja-se revisitar aspectos da “cultura daimista” conforme vivida, lembrada, narrada, cantada, dramatizada... por Luiz Mendes, o orador do Mestre Irineu. Trata-se, contudo, de um estudo aberto e inconcluso; um diálogo de muitas vozes (BAKHTIN, 2011) a partir do qual são tecidas representações escritas de representações orais de saberes e fazeres. Saberes e fazeres que, de forma sutil e despretensiosa, subvertem padrões culturais hegemônicos e trazem à tona vozes silenciadas no processo de colonização/dominação de territórios, corpos e mentes.