A presente tese de doutoramento tem por proposição pensar a relação existente entre os fluxos migratórios e a memória coletiva na comunidade rural Curralinho, localizada no município de Mata de São João, na região do Litoral Norte do estado da Bahia. Segundo as análises de Chayanov (1964) e Woortmann (2009), a migração para o campesinato funciona como uma estratégia de reprodução e manutenção da unidade doméstica familiar e, portanto, cada grupo gesta de forma idiossincrática as bases das formas e objetivos do seu processo de deslocamento. Nesse sentido, a pretensão é compreender, por meio da memória coletiva, qual a estratégia que esta comunidade criou ao utilizar a migração como forma de reprodução social, identificando as motivações dos indivíduos migrantes, os sentidos para as suas famílias e os significados para o grupo social em perspectiva. Além disso, a análise centra-se, sobretudo, nas intervenções relacionadas ao contexto externo marcado por transformações sociais, econômicas, culturais, ambientais e políticas, as quais se processaram a partir da década de 1970, por meio do desenvolvimento econômico e turístico regional. É importante ressaltar que estas impeliram mudanças estruturais no ordenamento socioeconômico das comunidades locais e a reestruturação dos fluxos migratórios. Metodologicamente, a pesquisa pautou-se na análise qualitativa, tendo por instrumentos o resgate da memória, utilizando-se da história oral, de entrevistas abertas e da observação participante. A partir disto, percebeu-se que o Curralinho está no caminho de quatro rotas migratórias categorizadas como: sair, chegar, permanecer e retornar, as quais demarcam os quatro tipos de migração que mais interferem na estrutura social deste grupo, definidas como: i) migração das estratégias familiares, ii) migração da permanência, iii) migração da atratividade e iv) migração às avessas. Este fluxo de deslocamento intenso demarcou esta comunidade como lugar de chegada e lugar de saída inserindo novos elementos na organização interna, no direito consuetudinário e na percepção do grupo, assinalando e aprofundando as diferenças socioeconômicas e culturais entre os estabelecidos, ou seja, os “moradores de dentro”: “nativos de fato” e “novos nativos”, e os distintos níveis de outsiders: a) os “moradores de fora”: “novos moradores” e “veranistas” e b) os “passantes”: “turistas alternativos” e ‘trabalhadores’. Desse modo, a tese é de que este grupo encontra-se numa luta constante, na qual a memória coletiva se une à memória-viajante, representante da junção das memórias-migrantes, e à memória-maré tentando manter certo equilíbrio na ordem social local. Por isso, tem se estruturado também nas bases do pertencimento atreladas ao fortalecimento da identidade social, fincada nas relações de trabalho com a terra, nas formas de ocupação e uso tradicionais do território, na ancestralidade, no parentesco, compadrio e vizinhança, ao tempo e ao espaço da sociabilidade e, sobretudo, na memória coletiva como resistência a desestruturação provocada pelos traços de modernidade do desenvolvimento econômico e turístico e da tentativa de permanência de sua tradição cultural.