A literatura infantil é essencial na formação de novos e permanentes leitores, com
características próprias que a diferenciam de outros gêneros literários. Mas o conceito de
literatura é construído socialmente a partir do que se deseja considerar “literatura”, conforme
o contexto de uma época e as influências de poder da classe dominante e de suas instituições
(EAGLETON, 2001; HUNT, 2015). Nesse sentido, a literatura infantil surge, no século 18,
aliada ao discurso pedagógico e moral, sob o jugo da burguesia europeia, da escola e da
família, com o objetivo de formar a criança exemplar e ideal para cristalizar sua cultura e
valores ideológicos (LAJOLO; ZILBERMAN, 2002). Por isso, é dada especial atenção à
recepção da literatura infantil. A estética da recepção, suas premissas e conceitos são
analisados nesta dissertação com o objetivo de se compreender como funciona o processo de
leitura, a relação dialógica entre obra e leitor (JAUSS, 1979; ZILBERMAN, 1989). Pretende-
se tematizar e caracterizar a literatura infantil, definindo-a pela relação entre texto e leitor
infantojuvenil (BENJAMIM, 1987; BETTELHEIM, 2002; CUNHA, 1995; JESUALDO,
1985); considerando a antinomia entre discurso estético e discurso utilitário (PERROTTI,
1986, 1995); verificando aspectos de suas origens no Brasil, cujo projeto nacionalista
impunha uma invenção e idealização da pátria, de sua natureza exuberante e de seus símbolos
nacionais (LAJOLO, ZILBERMAN, 2002; SANDRONI, 1986, 1987). Tomam-se como
corpus e objetos de análise as obras narrativas Vovó Amazônia está contando... (1993, 2. ed.),
de Regina Pesce, e Aventuras de Tizinho nos rios e nas selvas da Amazônia (1978), de
Leandro Tocantins, as quais se revelam herdeiras da literatura infantil brasileira em seus
primórdios e nas quais sobressai um sentido de persuasão e retórica pelo discurso utilitário,
com vistas à invenção e veiculação de uma cultura brasileira amazônica. Esta dissertação,
intitulada Ecos discursivos e ideológicos nos recontos de Vovó Amazônia e nas aventuras de
Tizinho, aborda isso em três capítulos, a saber: 1 Recepção e contexto, que discute a estética
da recepção formulada por Hans Robert Jauss e contextualiza a literatura infantil em suas
origens; 2 Vovó Amazônia, que analisa a ideologia, mediante discurso utilitário e pedagógico,
em Pesce (1993); 3 Aventuras de Tizinho, que analisa a ideologia, mediante discurso utilitário
e nacionalista romântico, em Tocantins (1978). Evidencia-se, diante do exposto, a estética da
recepção como referencial teórico básico.