Nas décadas oitocentistas, principalmente, a partir da segunda metade do século XIX, a instrução primária, era concebida, pelas elites dirigentes, como estratégica para disciplinar, moralizar, higienizar e civilizar as classes populares, tendo como horizonte, ladear as “nações civilizadas”. Para atingir esses fins, entre os mecanismos utilizados pelos governantes da Província do Rio de Janeiro destaca -se a fiscalização das escolas primárias públicas. Entretanto, por que os dispositivos de inspeção da instrução ocupavam grande parte das reflexões e das medidas legislativas dos dirigentes provinciais? Qu ais medidas eram utilizadas pelas autoridades provinciais para forjarem os mecanismos de inspeção? Quais eram os problemas centrais elencados nos Relatórios da inspeção da instrução? Esta investigação tem por objetivo analisar a constituição da burocracia da inspeção da instrução primária, na segunda metade do século XIX, especialmente a Diretoria da Instrução e os inspetores, considerados fundamentais para fiscalizar a instrução nos estabelecimentos escolares públicos na Província do Rio de Janeiro. Em um plano mais específico, analisa as fontes principais: os Regulamentos da Instrução (1849,
1859, 1862 e 1876), os Relatórios anuais da Presidência da Província do Rio de Janeiro, notadamente, entre 1850 e 1889, e os Relatórios da Diretoria da Instrução disponíveis (1861-1889). Pari passu, foram investigados periódicos e obras literárias produzidos no período, tendo como fio condutor a tentativa de implantação de um corpo burocrático de inspeção eivado por disputas políticas e sociais sobre a educação popular. Assim, esta pesquisa inscreve-se no campo da história cultural e tem por abordagem teórico - metodológica a análise documental, procurando também, demonstrar, como os interesses políticos, econômicos, sociais, culturais, religiosos , educacionais da sociedade fluminense, particularmente de suas elites, articulavam -se com a fiscalização da instrução. O estudo dialoga, também, com pesquisas anteriores, as quais são apontadas na revisão de literatura como estudos sobre temática semelhante. A presença da inspeção nas escolas, em diferentes Províncias do Império do Brasil, no século XIX, demonstrada pelos estudos anteriores, indica que se trata de uma temática comum nas fontes documentais oitocentistas e que, explicitamente, permeava as inquietações das autoridades e dirigentes do Estado, naquele recorte temporal. Entre os resultados obtidos, constata-se que, a inspeção da instrução foi forjada em um contexto de implantação e legitimação da escola formal como modalidade de educação que vai se tornando dominante, em meio a clivagens, lutas e resistências entre as classes e os diversos agentes educacionais. Os estudos realizados apontam que as ações da inspeção não eram uma ideia prévia que ia sendo implantada ao longo do Império. Ao contrário, a partir das disputas econômicas, sociais, culturais e políticas, nos vários espaços sociais, foi sendo elaborado um conjunto de medidas legais e burocráticas. Inclui-se, ainda, nesse conjunto de medidas, a configuração de um corpo administrativo encarregado de inspecionar e fiscalizar as escolas primárias, permeadas por resistências, clivagens, tensões, tanto entre as frações dirigentes, quanto entre estas e os segmentos que deveriam ser fiscalizados. A frequência à escola, desta forma, foi se constituindo em uma das temáticas ce ntrais para a observação dos inspetores da instrução, assegurando o exercício da fiscalização. Os inspetores, além da formação superior, deveriam ser as “mãos e os olhos da autoridade”, realizando a “inspeção eficaz”. Ou seja, além de estarem alinhavados c om o projeto hegemônico das elites fluminenses, precisariam ter olhos atentos a tudo que ocorria nas escolas e a capacidade de relatar, por escrito, as inspeções realizadas.