Esta tese insere-se no conjunto de estudos que teve como temática a interface entre Educação Especial e Educação do Campo. O objetivo geral foi analisar as práticas discursivas e não discursivas de articulação entre a Educação Especial e a Educação do Campo, no âmbito da Educação Básica, na rede municipal de ensino de Paranaíba/MS. Diante desta empreitada, foram estabelecidos os seguintes objetivos específicos: a) escavar os dispositivos da Educação
Especial, da Educação do Campo e da interface entre ambas as modalidades no cenário educacional brasileiro, a partir da perspectiva da educação inclusiva; b) descrever as configurações da Educação Especial e da Educação do Campo na rede municipal de ensino de Paranaíba/MS; c) caracterizar os sujeitos discentes e as escolas do campo e delinear os espaços e tempos da Educação Especial e da Educação do Campo em Paranaíba/MS; d) problematizar os discursos na interface entre Educação Especial e Educação do Campo, no contexto investigado. O arcabouço teórico-metodológico da tese partiu das contribuições dos Estudos Foucaultianos e dos Estudos Culturais. Trata-se de uma pesquisa etnográfica, no bojo da qual foi constituída uma rede discursiva – compreendida como um artefato metodológico para captura de práticas discursivas e não discursivas acerca do objeto eleito para a investigação. Nesse processo, o cenário enunciativo compreendeu a rede municipal de ensino de Paranaíba/MS, tendo como foco as cenas enunciativas de três escolas do campo. Os sujeitos enunciadores do estudo foram 24 profissionais da educação: uma coordenadora municipal da Educação Especial; uma coordenadora municipal da Educação do Campo; sete
gestores escolares (diretor e coordenador pedagógico) das escolas do campo; duas professoras das Salas de Recursos Multifuncionais das escolas do campo; 13 professores das classes comuns das escolas do campo que atendem alunos público-alvo da Educação Especial. Os procedimentos para a captura das práticas discursivas e não discursivas envolveram: observação, registros fotográficos, estudo documental, entrevistas, levantamento de
matrículas e uso de dados de questionário socioeconômico respondido por 218 famílias dos alunos das escolas do campo. Para o tratamento dos dados utilizou-se a análise do discurso de inspiração foucaultiana. Os resultados evidenciaram alguns deslocamentos discursivos da Educação Especial e da Educação do Campo, na rede de ensino em exame, em relação aos regimes de verdade vigentes em cada uma destas modalidades educacionais. Ademais,
refletiram que a interface Educação Especial – Educação do Campo não é um dado, mas uma articulação discursiva que necessita ser construída. Nessa direção, consideraram a interface como trânsitos de sujeitos híbridos por espaços e tempos intersticiais que se cruzam entre as faces da Educação Especial e da Educação do Campo. A hibridização entre estas áreas educacionais tem produzido uma figura complexa de identidade e diferença: os alunos que permanecem nas Salas de Recursos Multifuncionais das escolas do campo sob o rótulo ―em
avaliação‖. Por fim, o trabalho indicou como desafio emergente a construção de uma articulação entre ambas as modalidades que atenda tanto as necessidades específicas como as diferenças socioculturais, etárias, étnico-raciais, de gênero, de origem, as possibilidades e os limites do processo ensino-aprendizagem dos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação oriundos do campo. Traduções culturais podem ser necessárias para evitar a colonização e a subalternidade dos modos de vida dos alunos do campo, bem como a produção e/ou a invisibilização de deficiências em razão de diferenças socioculturais.