Atualmente, vários trabalhos ratificam a importância atribuída aos livros didáticos (LD) no processo de ensino e aprendizagem. Embora pareçam materiais imutáveis, os interesses e os debates entre os grupos sociais criam espaço para a valorização de determinados conhecimentos. Nesse contexto, o debate sobre a problemática ambiental, mais especificamente a questão hídrica, foi incorporado nos livros didáticos. Utilizamos como referencial teórico metodológico a análise crítica do discurso (ACD), pois ela traz para as análises a relação entre o discurso e o contexto político e social, buscando identificar a presença de discursos hegemônicos e espaços de ruptura com o status quo. Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo caracterizar as representações discursivas sobre a água em textos de LD de Ciências, aprovados pelo Programa Nacional dos Livros Didáticos (PNLD) de 2017, a partir da ACD. Para esse trabalho, selecionamos quatro LD aprovados pelo PNLD de 2017, nos quais escolhemos quatro leituras complementares que tratavam do tema água. Nas leituras complementares, buscamos caracterizar os temas, os processos, as circunstâncias e os participantes, e relacionamos essas representações discursivas com os pares analíticos globalização/localização e colonização/apropriação. A partir da análise dos textos, foi possível identificar quatro temas: (i) relação entre os conhecimentos científicos e as políticas públicas no tratamento da problemática hídrica; (ii) usos e conflitos da água; (iii) economia de água e; (iv) problema de quem. As análises neste estudo apontam para a problematização da falta de água e a sua relação com o consumo. Dessa maneira, as representações discursivas são permeadas por uma visão conservadora da questão hídrica, tratando a economia de uso doméstico de água como solução para a crise hídrica. De maneira geral, as escolhas discursivas, presentes nos textos, visam mudanças comportamentais, individuais e de caráter prescritivo, silenciando a participação de determinados atores sociais, como a sociedade, na gestão dos recursos hídricos. Somente um texto cita a possibilidade de colaboração entre pesquisadores, sociedade e tomadores de decisão a fim de buscar soluções para os problemas
ambientais, embora tímida, essa abordagem representa um espaço de ruptura com o discurso hegemônico comportamentalista da educação. A ciência é vista como neutra e como solucionadora dos problemas enfrentados pela sociedade, aproximando-se da corrente ambientalista da eco eficiência. Os discursos presentes nos textos analisados representam um afastamento dos indivíduos das questões de gestão ambiental e da participação crítica, que são previstos por políticas públicas nacionais e internacionais. Esses discursos hegemônicos silenciam o debate sobre as injustiças ambientais referentes ao acesso e à distribuição do recurso hídrico.