Esta tese objetiva analisar a prática discursiva do gênero musical death metal, com ênfase em aspectos relativos à construção de um ethos peculiar a esse discurso. Dentre os elementos que ajudam a constituir recorrentemente a imagem de enunciador desse discurso, destacamos o papel da “voz gutural”, que, perceptualmente, assemelha-se a um urro animalesco. O interesse principal desta pesquisa é refletir acerca do modo como essa qualidade de voz e os demais níveis enunciativos que constituem a prática discursiva do death metal engendram a produção de determinados efeitos de sentido. A perspectiva teórica que adotamos é a da Análise do Discurso; mais especificamente, baseamo-nos em estudos de Dominique Maingueneau sobre conceitos como cenografia, ethos e semântica global. Com suporte na noção de semântica global, por exemplo, negamos assumir a voz enquanto aspecto auxiliar e contingente. Da mesma forma que as letras das canções – por meio de suas características lexicais, sintáticas etc. – corroboram a construção de cenografias peculiares, a utilização de determinada qualidade de voz, enquanto elemento de uma semântica global, constitui, ao lado dos próprios signos (em sentido estrito), o que é enunciado. Violência, satanismo, morte e possessão são alguns dos temas recorrentes no death metal. As canções do gênero, em vista de tal escopo temático, acabam construindo cenografias que colocam em jogo representações estereotipadas acerca de objetos discursivos como o mal e o demônio. Diante desse panorama, levantamos a hipótese de que a emergência do modo de enunciação típico do death metal não é simples e aleatória “escolha” estilística, mas fundamenta-se em construções estereotipadas relativas ao que se entende por “demoníaco” em nossa cultura. Tal relação, por sua vez, é posta em funcionamento a partir da constituição de cenas de enunciação legitimadas, dentre outros fatores, por um ethos discursivo específico, que chamamos previamente de “ethos demoníaco”. Considerando a interação entre diversos níveis enunciativos (voz, letras das canções, performances, materiais gráficos etc.) na produção de uma imagem de enunciador, concebemos o ethos como uma noção que permite articular os modos de enunciação a um caráter e a uma corporalidade, ambos aqui tratados como construções de leitura. Deve-se salientar que o ethos do death metal, enquanto elemento da semântica global desse discurso, não se refere estritamente às canções, mas a todo o funcionamento associado à comunidade discursiva no interior da qual as materialidades de tal gênero musical são produzidas e postas a circular