Os dados mais atualizados do IBGE sobre os trabalhos em turnos e noturno no Brasil mostraram que, em 2016, quase 14 milhões de brasileiros (14,9% da parcela ocupada da população) trabalhavam total ou parcialmente em horário noturno (entre 22h e 05h) e 1,5 milhões (1,7% da população ocupada) eram trabalhadores que atuavam em turnos ininterruptos de 24 horas. Frente a esse cenário e dada a tendência de aumento desses números, torna-se relevante conhecer a realidade diferenciada das atividades desses trabalhadores. Sendo assim, este estudo teve o objetivo de analisar as condições de atividade dos trabalhadores que atuam, em turnos e período noturno, na análise e tratamento remoto de falhas de duas grandes empresas de telecomunicações. Quanto ao método, a pesquisa, de abordagem qualitativa, utilizou como instrumento de coleta de dados na Empresa A questionários (março de 2017), e na Empresa B questionários e entrevistas individuais (entre abril e julho de 2017). Os sujeitos da pesquisa foram em número de 9 da Empresa A e 7 da Empresa B, totalizando 16, sendo que todos atuam a maior parte do tempo em horário noturno, podendo ser turno alternado ou fixo, trabalhando ou não em feriados e finais de semana. O referencial teórico de análise se deu pelo viés da Ergologia. Os resultados obtidos foram analisados através de duas ações distintas: 1) construção de um quadro com as principais questões relacionadas ao trabalho em turnos e noturno e análise das informações; e 2) discussão dos temas que apareceram de forma recorrente nas entrevistas e questionários. Em relação às principais questões relacionadas ao trabalho em turnos e noturno, a resposta da maioria dos trabalhadores participantes seguem tendências de outras pesquisas na área ou recomendações do que é considerado ideal nesse cenário. Os pontos que apresentaram divergências foram: os trabalhadores, em sua maioria, tendem a dormir logo que chegam do trabalho; na Empresa B, a maioria dos trabalhadores manteve o mesmo comportamento alimentar e peso, após iniciar o trabalho em horário noturno, além de aumentar ou manter a mesma frequência de atividades física. Além dessas questões, os trabalhadores citaram o menor fluxo de trânsito como fator satisfatório relacionado ao horário de trabalho, tema que não é abordado com ênfase nos outros estudos avaliados nessa pesquisa. Entre os trabalhadores de ambas as empresas foi consenso a ausência de percepção de preocupação diferenciada com os trabalhadores noturnos por parte das empresas, a ausência de oferta de serviços de apoio emocional e/ou de saúde oferecidos especificamente para trabalhadores que atuam em período noturno e ausência de instruções por parte da empresa acerca de possíveis impactos que o trabalho em turnos e noturno podem causar. Dentro os temas que emergiram de forma recorrente nas entrevistas e questionários estão: família, tempo e conhecimento técnico. Podemos concluir, portanto, que analisar as condições de atividade dos trabalhadores em turnos não é tarefa simples, sob a perspectiva ergológica, dadas as inúmeras tensões entre o trabalho prescrito e o realizado, assim como as variáveis com diversas possibilidades envolvidas, até devido a atividade de cada trabalhador ser singular, pois cada trabalhador é único.