O discurso é essa categoria que nos permite conhecer informações sobre aspectos intrínsecos à maneira como o outro se pronuncia nos meios sociais e os instrumentos utilizados para produzir a manifestação do “eu discursivo”. Criando uma imagem de si, o autor se projeta sobre o outro com intuito de incitá-lo aparticipar de uma ação, o diálogo na interação verbal. Para tanto, o autor se vale de recursos linguísticos devidamente manipulados por sua consciência, a fim de que o outro, mesmo não percebendo, seja persuadido, e portanto, participe da interação verbal concordando ou discordando daquele que o incitou.A canção, por ser um instrumento de grande poder de persuasão, pode ser usada para prover a persuasão sobre o outro e por conseguinte, refratar o “eu” do cancionista, incitar a reflexão do ouvinte e promover o dialogismo, interdiscurso entre as pessoas e as esferas sociais. Nosso objetivo em estudar a canção foi o de perceber como o ethos discursivo foi construído nas canções “Polícia”, Igreja”, “Família”, “Estado Violência”, do grupo Titãs, do álbum “Cabeça Dinossauro”, de 1986. A partir desteentendimento sobre a canção, este trabalho propõe uma discussão reflexiva sobre a interação verbal, e também dialogismo, interdiscurso, gesto entoativo, os quais, segundo as conclusões de nossa análise, são elementos constituintes do ethos discursivo, uma vez que eles são marcas da presença do eu subjetivo de quem produz a canção, objeto de minha pesquisa. Para perceber a existência desses elementos nas canções do grupo Titãs, lançamos mão das considerações de Bakhtin (2009), Mainguenau (2013), Caretta (2013), Brait (2009), Marques (2013), Tatit (2004) eAmossy(2014), que tratam da canção e dos aspectos discursivos da linguagem, da análise do discurso como metodologia de pesquisa, bem como a construção do ethos discursivo. Outros teóricos como Frye (1973) e Possenti (2010), os quais tratam de características do humor e da ironia em textos.Além desses, teóricos usamos as considerações de Freud (1987), para solidificar nossas conclusões sobre a consciência do sujeito, e a sua fragmentação nos âmbitos sociais distintos com as proposições de Hall(2006). Por fim, discutido ainda as considerações de Revuz (1990), quando trata da heterogeneidade mostrada na enunciação. A pesquisa acerca da canção sob as considerações dos teóricos ena nossa perspectiva sobre o objeto, revelaram que o ethos discursivo das canções, está emoldurado pelas categorias acima explicitadas, elas constituem a imagem do sujeito que toma para si a voz do outro e os discursos que estão a circular nos âmbitos sociais e os refaz segundo a ideologia subjetiva, a saber o “eu” dos cancionistas. Essa realidade é usada na interação verbal com intuito de persuadir o outro, aquele que escuta as canções, engendrando nesse alguns valores sociais e descontruindo outros, afinal, o maior objetivo dos cancionistas é o de criar relações discursivas, as quais se tornem pontes entre os sujeitos.