Esta tese tem por objetivo investigar, sob um ponto de vista filosófico,
possíveis caminhos para pensar o que significa resistir diante da chamada crise
ecológica, isto é, o conjunto das graves alterações de origem antropogênica
observadas nos processos biogeoquímicos da Terra, a ponto de ter suscitado a
entrada do planeta numa nova época geológica, o Antropoceno. Esse
acontecimento coloca em xeque a própria validade universal das categorias que
sustentam a epistemologia dita ocidental – a qual, segundo Bruno Latour (1994),
se caracteriza pela admissão de apenas dois modos de existência para os seres, isto
é, como entes naturais ou culturais. De maneira que, para investigar as
possibilidades de resistência, sugerimos ser necessário considerar os modos
próprios de outras ontologias conceberem os entes que habitam o mundo, bem
como suas maneiras particulares de descrever os processos e interferências que
ameaçam destruí-lo. Tal consideração da pluralidade ontológica existente se faz
necessária também porque, como este trabalho pretende esclarecer, a Terra pode
ser compreendida como o solo comum que só existe a partir das versões
divergentes dela mesma. A unidade que constitui esse solo comum, no entanto,
não pode ser vislumbrada sem um cuidadoso trabalho de composição: foi uma
tentativa malsucedida de fabricar um mundo comum que deflagrou a atual guerra
de mundos (Latour, 2002) que a crise ecológica torna incontornável. Assim,
seguindo ainda a terminologia de Latour, de um lado da disputa estão os
Humanos, aqueles que, presumindo deter o conhecimento definitivo sobre a
realidade objetiva do mundo e se arrogando o direito de explorar impiedosamente
os seres “naturais” (além de outros humanos), conduziram-nos ao estado atual de
desordem ecológica; do outro, há os Terranos, indivíduos e povos que
reconhecem na Terra e em seus seres verdadeiros aliados na existência, e não
meros recursos a explorar. Esta tese, portanto, traça um panorama, ainda que não
exaustivo e em larga medida especulativo, dos múltiplos modos terranos de existir
e resistir, permitindo assim entrever as possíveis insurreições cosmopolíticas da
Terra e de seus povos contra a barbárie eco-política que se anuncia.