Esta pesquisa tem como objetivo analisar como músicos da Nova Canção Chilena, particularmente Víctor Jara, se colocavam como representantes de uma classe social específica que era racializada, como representantes de uma classe artística e de um ideal sócio-político. Para isso, além da análise histórica, serão analisadas canções escolhidas de Víctor Jara sob o viés da análise musical, fraseológica e harmônica, principalmente através da análise do Método Tripartite de Semiologia Musical de Nattiez, conjugadas à perspectiva teórica decolonial e aos estudos culturais. A partir do conhecimento de que os músicos da Nueva Canción Chilena em geral, e Jara, em particular, buscavam em suas obras propagar a revolução socialista, e, após a eleição de Allende, apoiar o governo da Unidad Popular, tem-se o intuito de analisar como a letra e a música de Jara se entrelaçam com a temática abordada pelo compositor. A Nueva Canción Chilena constituiu um movimento musical que aliava o resgate de canções e manifestações folclóricas ao protesto político e social, florescendo no Chile aproximadamente entre os anos de 1965 e 1973, junto a movimentos semelhantes na América. Um estudo do contexto chileno foi realizado, com destaque para a polarização política até o golpe militar contra o governo de Salvador Allende em 1973. A seguir, aspectos da Nueva Canción Chilena foram abordados, com seu levantamento histórico, formas de representação, de divulgação, e seu entrelaçamento com as eleições chilenas de 1969. Uma análise biográfica de Jara também foi realizada, com vistas a situar o músico/compositor dentro do seu contexto histórico e dentro do movimento da Nueva Canción Chilena. Foi realizado um levantamento bibliográfico de livros, teses, dissertações, artigos científicos, matérias de jornal, programas de televisão e documentários, bem como análise das partituras publicadas. Os principais autores utilizados como referenciais teóricos foram Walter Mignolo (2005), Enrique Dussel (1992), Aníbal Quijano (2005), Stuart Hall (1998), Roger Chartier (1988), Raymond Williams (1979), Édouard Glissant (2005), Jean Jacques Nattiez (2002), Phillip Tagg (2003), Marcos Napolitano (2002) e Franco Fabbri (1981). Foram levantadas questões sobre como os músicos, e, particularmente, Víctor Jara, representaram a si mesmos, ao povo e ao seu contexto, incluindo noções relativas à racialização e dominação de países ou elites imperialistas e as formas pelas quais Jara buscou aliar as temáticas abordadas pelas letras a aspectos melódicos, harmônicos e instrumentais.