O
lúpus é uma doença crônica e de origem autoimune, que atinge em sua maioria
mulheres em idade fértil. A doença pode afetar todo e qualquer órgão do corpo,
causando uma série de modificações de ordem biopsicossocial que atra vessam os
processos identitários destas mulheres. Este trabalho tem como objetivo explicitar a
experiência autoeducativa de mulheres com lúpus nos processos de formação de
suas múltiplas identidades (mulher, paciente com lúpus e sertaneja). A entrevista
na rrativa é a ferramenta metodológica utilizada pela pesquisadora, que usa como
pano de fundo sua própria experiência enquanto mulher com lúpus vivendo no
semiárido. Optou se pela abordagem metodológica de histórias de vida. Participaram
deste estudo sete mu lheres com lúpus das cidades de Dormentes e Petrolina,
localizadas no estado de Pernambuco e mulheres de Juazeiro Bahia. As
entrevistadas fazem parte do Grupo de Atenção à Pessoa com Lúpus, grupo
voluntário, que atua há cinco anos acolhendo pessoas com lúp us e familiares na
região do sertão do São Francisco. A perspectiva teórica adotada fundamenta se em
autores que compreendem os processos de construção de identidade como não
essencialistas tais como Zygmunt Bauman, Manuel Castells e Stuart Hall. Procurou
se identificar os fatores que influenciam a construção de identidades dos sujeitos da
pesquisa e as reverberações destes em suas vidas, através de um debruçamento
sobre as histórias das participantes. Trilhamos os caminhos percorridos pelas
mulheres do ser tão, que constroem suas identidades a partir da diferença que
marcam seus corpos e suas subjetividades. A partir dos discursos dos sujeitos
pesquisados, percebeu se que o território não é só lugar de habitação física, é
produção de afeto, trocas inters ubjetivas e que as relações sociais que as mulheres
com lúpus estabelecem com o semiárido, foram fatores de proteção para o
enfrentamento das questões limitantes impostas pela doença em relação aos
aspectos climáticos. As experiências autoeducativas das mu lheres entrevistadas se
apresentaram como fruto das situações concretas da vida, tais como, acesso ou não
a trabalho e renda, questões de gênero e apoio social percebido, estas interferem na
maneira como esta mulher adquire autoconsciência, influenciando n o processo
contínuo de constituição de si a partir do auto reconhecimento e auto entendimento.
A partir das falas coletadas, conclui se que a contradição existe na experiência
autoeducativa dessas mulheres. Quando sozinhas, esta experiência autoeducativa
f oi carregada de sentimentos de negação, implicando no processo de formação e de
reconstrução de suas múltiplas identidades. Mas a partir do momento que estas
mulheres se inseriram no Grupo de Atenção à Pessoa com Lúpus, elas passam a
compartilhar essa dor com outras pessoas que estão enfrentando as mesmas e
outras lutas, tais como elas. Assim essa força coletiva, essa organização política,
solidária, pedagógica, proporcionou resiliência e emancipação, auxiliando as na
contradição dos conflitos de suas identidades, harmonizando as, sem com isso
deixarem de ser afetadas pelos impositivos dos conflitos estabelecidos e impostos
entre a enfermidade e o semiárido, além dos conflitos sociais impostos pelos
imperativos dos conflitos de gênero e a condição de pessoa com lúpus.