RESUMO
O ensino de Língua Espanhola no Brasil por muito tempo foi marcado pela hegemonia do Espanhol Peninsular, o que contribuiu para a consolidação de preconceitos e apagamento das manifestações linguísticas e culturais dos países hispanofalantes da América Latina, principalmente, aqueles de menor prestígio. A hipótese deste trabalho é que essa situação estaria interferindo na motivação e no interesse de estudantes de Espanhol da área de Hotelaria e Gestão em Turismo do Instituto Federal de Alagoas. Defendo, portanto, nesta tese, a necessidade do ensino de línguas que aborde aspectos culturais dos países hispano-americanos e, dessa forma, promova uma educação cultural e linguística mais humanista e sensível. As questões de pesquisa que norteiam este trabalho são: como desenvolver atividades que promovam a competência linguística e a cultural dos alunos? o que a análise dos vídeos/narrativas digitais produzidos pelos alunos de ambos os países pode mostrar sobre as facetas culturais de cada país e dos alunos envolvidos? e como interpretar e lidar com os componentes culturais trazidos por essas modalidades a fim de promover, de fato, o ensino intercultural? O referencial teórico utilizado para a análise dos dados está representado, principalmente por Aguirre Berltrán, 2012; Celani, Silveira, 2005; 2007; 2009; 2012, Estermann, 2009, Jewitt e Oyama, 2001 e Kress e van Leuween, 2006. A metodologia da pesquisa é qualitativa e está filiada à pesquisa-ação: Thiollent, 2011 e associada, no ensino, ao pós-método: Kumaravadivelu, 2003; 2006. O processo de geração de dados partiu da interação intercultural assíncrona entre os estudantes Brasileiros e Paraguaios por meio de produção de narrativas digitais e vídeos em aplicativos disponíveis em smartphones e compartilhados em grupo fechado do Facebook. Foram também utilizados diários de campo dos estudantes brasileiros e entrevistas semiestruturadas para a triangulação dos dados. Os resultados das análises dos vídeos e fotos tornaram visíveis aspectos de ambas as culturas que não seriam possíveis de ser enxergados em produções estritamente verbais. Por outro lado, a gramática visual proposta por Kress e van Leeuwen (2006) mostrou não dar conta de análises interculturais, ao não levar em consideração as culturas dos interlocutores. As interações interculturais contribuíram para que os estudantes brasileiros tivessem uma visão menos estereotipada em relação ao Paraguai e aos paraguaios. Além disso, embora não tenha sido foco das análises, pode-se afirmar que os estudantes paraguaios tiveram a possibilidade de ampliar os seus conhecimentos acerca da cultura nordestina. Como principal consequência desses resultados a pesquisa aponta para a necessidade de o ensino de línguas promover ações que propiciem reflexões acerca da interculturalidade.