Este trabalho se
interessa pelas reconfigurações na ordem do simbólico em
sociedades latino-americanas a partir do início dos anos 1990 em
vista do processo transnacional de hegemonização do capitalismo
pós-industrial a partir da aplicação de políticas
neoliberais. Na tentativa de interceptar efeitos de sentido
produzidos sob essa conjuntura, nos centramos num determinado
campo da produção de bens simbólicos: a música popular (MP).
O objeto se especificou a partir de um recorte de produções da
MP latino-americana que: i) participassem das disputas
simbólicas em torno do rock considerado “nacional” nesse
contexto, e ii) fossem definidas ou se auto definissem a partir
de noções como “mistura”, “fusão”, “hibridismo”
etc. Nossa pergunta norteadora foi, então: nas condições de
produção em que foram formuladas, em que medida e de que modo
as relações de dentro-fora, que necessariamente devem funcionar
sob a noção de “mistura”, são determinadas, nas
produções musicais de interesse, pelo funcionamento de uma
dicotomia “local” vs. “forâneo”, característica da
própria formação das culturas latino-americanas? Como a
natureza do próprio objeto não admitia conclusões sobre
predomínios, desenvolvemos um estudo comparativo de dois casos,
em busca de regularidades discursivas: as bandas Bersuit
Vergarabat (Argentina) e Chico Science & Nação Zumbi/Nação
Zumbi (Brasil). Nosso objetivo foi, então, investigar como se
determinavam discursivamente o “local” e o “forâneo” em
suas produções. Para isso, analisamos um corpus de canções de
cada uma das bandas, além de outros tipos de materiais presentes
nos próprios álbuns das agrupações, assim como entrevistas,
reportagens e documentários realizados com seus integrantes.
Estudamos, a princípio, como a determinação de “local” e
“forâneo” se dava na construção do próprio fazer
criativo/musical como objeto de discurso, com especial atenção
à relação de tal construção com gêneros ou tradições
musicais. Ao realizar tal abordagem analítica, chegamos também
à observação de que a tematização da desigualdade social
parecia ser decisiva na determinação discursiva de “local”,
em ambos os casos estudados. Essa observação nos levou, então,
à articulação de um segundo eixo de análise a partir de um
conjunto de canções reunido em vista dessa questão. De modo
geral, nosso trabalho dialoga com a perspectiva materialista de
análise de discurso, sem a pretensão de enquadrar-se nessa
corrente, mobilizando conceitos também de outras linhas
teóricas de abordagem ao discurso e à enunciação. As
análises realizadas focaram, fundamentalmente: a cenografia
enunciativa, especialmente quanto à correlação entre
instâncias de pessoa e lugares de dizer; e a constituição de
objetos discursivos, buscando refletir constantemente sobre a
textualização do interdiscurso e abordando mecanismos como a
cadeia correferencial, as construções relacionadas ao
contraste, os papeis temáticos, entre outros aspectos da
materialidade discursiva. Além disso, no tratamento às
canções, buscou-se considerar, no interior do dispositivo
analítico, também aspectos da materialidade musical e corporal
(performática) da canção.