O trabalho buscou compreender o papel da cultura escrita, especialmente dos fanzines, na construção de uma identidade contracultural cristã na cidade de Belo Horizonte entre os anos 1980 e 1990, período que compreende o surgimento e a consolidação da Comunidade Cristã Caverna de Adulão (CCCA), um dos expoentes brasileiros do movimento artístico, cultural e eclesiástico conhecido como contracultura cristã. O movimento consiste em um “encontro” entre a contracultura jovem americana dos anos 1960 e a juventude evangélica americana, resultando em uma explosão musical e artística cristã repleta de elementos da contracultura, como a estética e a linguagem hippies, o rock progressivo, em um processo de ressignificação de práticas protestantes tradicionais e, consequentemente, na criação de igrejas alternativas. Considera-se que o movimento tenha chegado ao Brasil na década de 1970 e se desenvolvido nos anos seguintes, paralelamente às transformações da contracultura secular, buscando incorporar seus gêneros musicais e as identidades que com eles despontaram nos cenários nacional e internacional. A pesquisa é realizada a partir da perspectiva da História Cultural e do campo de estudos sobre a história da cultura escrita. O conceito de identidade mobilizado parte da perspectiva dos estudos culturais. As fontes da pesquisa foram construídas a partir de depoimentos orais coletados em entrevistas e de documentos escritos, como cartas, encartes de fita cassete e CDs, cartazes, revistas e, principalmente, fanzines do movimento produzidos no cenário belorizontino. Os fanzines se revelaram, ao longo da análise, como meio privilegiado de veiculação das representações do movimento de modo sistematizado na medida em que tratam de diversos temas relacionados ao universo da contracultura cristã e realizam em suas páginas práticas religiosas (discipulado e evangelização) e práticas culturais relacionadas ao universo underground (críticas e apologias), direcionando seu discurso simultaneamente a dois públicos leitores (o cristão e o não cristão). Esse gênero de produção escrita desempenhou, portanto, um papel significativo na construção da identidade do movimento especialmente na década de 1990, não somente no cenário local, mas também em âmbito nacional, considerando-se a amplitude de sua circulação. As representações veiculadas nos fanzines atuaram na construção de uma identidade juvenil, urbana, underground e evangélica.