La esquina es mi corazón, livro publicado em 1995, é um copilado de crônicas divulgadas inicialmente em colunas da Revista Página Abierta entre 1991 e 1993, meio de comunicação reconhecido pelo escritor Pedro Lemebel como o espaço difusor da sua escrita durante a transição democrática do Chile. O estudo “Leituras decoloniais do corpo, da sexualidade e do espaço urbano nas crônicas de La esquina es mi corazón de Pedro Lemebel” tem como objetivo geral analisar o texto lemebeliano a partir dos postulados da Teoria Crítica Decolonial (TCD), afim de entender como as narrativas do corpo, da sexualidade e do espaço urbano podem ser assumidas, dentro das crônicas, como discursos anti-hegemónicos de crítica à modernidade. A presente pesquisa, de carácter bibliográfico e abordagem qualitativa, se sustenta na epistemologia fronteiriça proposta por Grosfoguel (2010). No tocante à discussão sobre modernidade/colonialidade trago à baila as discussões do Coletivo modernidade/colonialidade (CMC), em específico, as considerações de Castro-Gomez e Grosfoguel (2017); Mignolo (2005, 2007, 2010); Quijano (2005); Dussel (2005). Para a discussão sobre a identidade e diferença como atos de criação linguística recorro a Tadeu da Silva (2000); Derrida (1973) e Foucault (2000, 2008) atravessando essa discussão com a problemática política que Garcés (2017) e Severo (2017) realizam. No tocante à relação entre o autor e obra recorro ao pacto autobiográfico de Lejeune (2008) e as reflexões de Garcés (2017). As discussões sobre o corpo, a sexualidade e o espaço urbano foram auxiliadas, principalmente, por Certeau (1994); Deleuze e Guattari (2004), Foucault (1979, 2014), Jacques e Brito (2004, 2012); Maldonado Torres (2007); Mignolo (2008); Segato (2011). Nas “Considerações iniciais” do trabalho faço o percurso do meu encontro com a pesquisa e apresento uma revisão bibliográfica de textos que discutem o trabalho lemebeliano. Na Sessão I “Língua(gem) e (De)colonialidade” trago as principais discussões do CMC e reflito sobre a possibilidade de uma decolonialidade linguística. Na Sessão II “‘Mi herencia india que se niega a la colonización escrita’: aspectos decoloniais na escrita lemebeliana” aproximo o texto lemebeliano à TCD, evidenciando que seu trabalho político/escritural está permeado por uma língua(gem) que manifesta sua diferença colonial: a língua(gem) marucha. Na sessão III intitulada “Narrativas do corpo, da sexualidade e do espaço urbano em La esquia es mi corazón”, apresento como Lemebel constrói essas categorias em sua narrativa e divido minhas reflexões em quatro tópicos. Nas “Considerações finais” assumo a escrita lemebeliana como uma prática decolonial que manifesta sua diferença colonial: suas arestas identitárias de pobre, maricón, indígena mapuche e artista. Dessa forma o escritor é um reflexionador cultural que lê as simbioses sociais da cidade urbana e a partir das apreensões sensíveis que realiza dos espaços onde transita (principalmente os espaços marginais) resgata corpos, memórias e vozes encobertadas nas grandes narrativas históricas e nacionais. Tal poética, constitui-se em um espaço (d)enunciativo capaz de transgredir os paradigmas da discursividade literária convencionada na tradição escrita “latino-americana”.