A presente dissertação de mestrado aborda o trato da polícia militar de Goiás para com a questão racial na formação de praças e nas abordagens policiais em uma sociedade racialmente desigual. Para tanto, a investigação ampara-se, no primeiro momento, em termos teóricos e por meio do método dialético-argumentativo, na própria história do Brasil, na Criminologia, na sociologia e no constitucionalismo contemporâneo, esse sob a perspectiva do Estado Democrático de Direito, todos ligados ao processo de escravidão do País e à formação do mito da democracia racial. A revisão da literatura e a análise crítica do discurso demonstram que desde as Ordenações do Reino até o período que se seguiu à abolição da escravatura e à Proclamação da República, sob forte influência do positivismo criminológico, o Brasil contou com uma programação criminalizante voltada ao segmento negro, que reflete a dificuldade de implantação da igualdade material nos dias atuais. Nesse cenário, tem relevância o papel da polícia ostensiva e sua atuação no controle social e, por isso, em relação à PMGO, aborda-se a sua formação desde quando o Brasil era dividido em capitanias, com destaque para a herança do positivismo criminológico, e explora-se a matriz curricular do curso de formação do policiamento ostensivo e a sua adequação às orientações da Senasp, a fim de averiguar se há abordagem da questão racial no conteúdo programático das disciplinas. Do POP, extraem-se elementos acerca da terminologia atitude suspeita, na busca de especificidades da abordagem policial que expliquem a escolha de quem será abordado nas atividades rotineiras de patrulhamento. A pesquisa empírica, por sua vez, utilizando o método hipotético-dedutivo, tem por objetivo aferir em que medida a cor da pele constitui fator de suspeição para a escolha de quem será alvo da abordagem policial por estar em atitude suspeita. A análise quantitativa dá-se através dos dados registrados na PSI da SSP/GO, com registros quanto à cor/raça das pessoas abordadas no estado de Goiás no recorte temporal delimitado de abril de 2016 a abril de 2018. Como resultado, tem-se a negligência por parte dos policiais militares no preenchimento da variável cor/raça nas abordagens policiais, que é de registro não obrigatório. Do que se tem registrado, a PMGO aborda mais pretos e pardos. Comparando-se o percentual de brancos, pretos e pardos na população e nas abordagens policiais, não se registra descompasso, mas observa-se que o próprio IBGE, na PNAD contínua, aponta maior coeficiente de variação no percentual da população preta, o que compromete a análise mais acurada. A realização do estudo qualitativo através da aplicação de questionário por survey resta prejudicada em razão da negativa injustificada da PMGO em anuir com a realização da pesquisa.