Ao compreendermos o fenômeno da linguagem enquanto a habilidade que nos permite nos comunicarmos por meio de uma língua (MARTELLOTA, 2012), somos levados ao fato de que a linguagem é uma capacidade unicamente humana (CHOMSKY 1980, 2014; FIORIN, 2015; GUSDORF, 1976; KAIL, 2013; KUHL; DAMASIO, 2014). Capacidade esta que, segundo Hall (2016), encontra-se atrelada não somente à comunicação, mas nos permite ainda representar ao outro a forma como encaramos o mundo à nossa volta, nossos valores, costumes, cultura e identidades. Nesse sentido, entendendo a linguagem como uma prática social historicamente situada, tendo sua realização concreta e efetiva por meio do
enunciado produzido em contextos reais de uso e interação (BAKHTIN, [1979] 2011; BRAIT, 2014; MOITA LOPES, 2006; VOLÓCHINOV, 2017), propomos como objetivo neste estudo analisar, por meio da Linguística Aplicada transdisciplinar/indisciplinar, o que os enunciados presentes nas obras organizadas por Luisa Galvão Lessa
(2002a), (2002b), (2002c) podem fornecer em relação às representações construídas acerca do conjunto de práticas, identidades e cultura do “seringueiro/a acreano/a”. Para isso, realizamos uma pesquisa de natureza qualitativa (SILVA, 2015), nos valendo de uma abordagem documental indireta (MARCONI; LAKATOS, [1983] 2012), tendo como fonte as obras A linguagem falada no vale do Acre, A linguagem falada no vale do Purus e A linguagem falada no vale do Juruá, organizadas pela Professora Dra. Luisa Galvão Lessa e publicadas no ano de 2002. Direcionamos nosso olhar pelo prisma da Linguística Aplicada transdisciplinar (RAJAGOPALAN, 2006; ROJO, 2006) e indisciplinar (MOITA LOPES, 2006), mobilizando conceitos (enunciado, identidade, cultura e representação) operados no campo das Teorias do Discurso e dos Estudos Culturais (BAKHTIN, [1979] 2011; BAUMAN, 2005; BHABHA, 1998; BRAIT, 2014; CHAUÍ, 2008; FERNANDES, 2006; FOUCAULT, 1999; HALL, 2006, 2016; MOITA LOPES, 2002, NOVAES, 1993; VOLÓCHINOV, 2017). A análise nos possibilitou perceber a necessidade que há em se explorar a identidade do “seringueiro/a” a partir dos enunciados produzidos pelos sujeitos denominados através desse termo, pois, considerando que a identidade é um conceito que a todo o momento nos interpela (BAUMAN, 2005; LOURO, 2000), mostra-se importante também voltarmos nossa atenção para o posicionamento dos sujeitos em relação às identidades. Além disso, mais que problematizar o termo “seringueiro/a”, revelando, entre outras coisas, suas limitações a partir das conotações expressas pela sua estrutura morfológica, chamamos atenção para o fato de que o sujeito da década de 1990, classificado como “seringueiro/a acreano/a”, não é somente aquela pessoa responsável pelo trabalho com a seringueira (Hevea brasiliensis), coleta e produção da borracha, mas é também o sujeito que corta seringa e tem seu plantio de roçado, que prefere a agricultura em detrimento da seringa, que encara a floresta como provedora, fonte de subsistência e mistérios, que declara abertamente não gostar de ser “seringueiro/a”, da vida e trabalho no seringal. De modo que desconsiderar tudo isso e insistir na classificação desses sujeitos como seringueiros/as acreanos/as”, tomando como referência tão somente a naturalidade e ofício, é negar o direito à voz, historicidade e identidade de tais sujeitos.