Poética é um conceito desenvolvido por Aristóteles com o qual Luiz Herrera (2016) confronta para propor uma poética da liberdade e que, entre outros sentidos, irei tomá-la por poesia e o enredo que a envolve. A poética tem o poder de comunicar e potencializar o que foi dito com a junção do que entendo serem melodias musicais,
formando as canções, que optei por chamar aqui também, em alguns momentos, de palavras cantadas. As canções existem com diferentes padrões em todas as culturas. No entanto, as canções produzidas pelos racializados, geralmente são vistas como passadistas e sem valor por vozes eurocentricas e colonizadoras. O padrão de poder
imposto pelo modelo eurocentrado, com sua racialização e através dela, estabelece a divisão e o controle do trabalho em carater uniforme. Impôs aos ameríndios uma história linear, do vencedor e baseada num dualismo que separa o homem “civilizado” do seu meio ambiente, colonizando-o através do espaço-tempo, desenvolvendo a
colonialidade que têm como modelo a ser seguido os preceitos da modernidade. Ela é o mundo à semelhança da civilização europeia ocidental. Este trabalho, intitulado Música e poética: cantarolando saberes na Amazônia acreana, analisa as letras de canções locais em busca de conhecimentos/saberes ou poéticas da libertação. Nesta
dissertação iremos utilizar essas canções e os seus temas como fontes, buscando nos seus enredos e imagens a produção de saberes de uma poética da liberdade. Entendemos que essas canções podem fazer circular saberes sobre o local e suas gentes, possibilitando descolonizar as mentalidades colonizadas em seus imaginários e subjetividades. Selecionamos um repertório musical que alia canções, que narram ou apresentam relações com o ambiente e a cultura, suas dificuldades e vivências. Notadamente produzidas e/ou que falam de pessoas dos estratos sociais colocados historicamente em posições subalternas: indigenas, negros, seringueiros, entre outros.
É esse padrão de poder dominante que controla as diferentes formas de trabalho e seus produtos, impondo uma universalização de valores e dos conhecimentos eurocentrados. A escolha de canções é porque parte das resistências históricas se dão, entre outras, pela arte poética, em especial pela póética da libertação. Músicas e palavras que geram canções e imagens são formas de alcançar a liberdade subjetivada, que está resguardada pelo imaginário e apresenta saberes que transcendem a escrita e enriquece de sentidos as palavras. Além de Luiz Herrera (2016), iremos dialogar com os escritos de Silvia Cusiquanqui (2010); Anibal Quijano (2005); Miguel Wisnik (2006); João Veras Souza (2016); Ana Lúcia Fontenele (2014) entre outros, que nos deram as bases de articulação das questões tratadas ao longo deste trabalho.