É observável que, no que concerne à tradição dos contos de fadas, tanto é difícil delimitar as origens de narrativas desse gênero quanto é frequente a presença de muitas delas em diversas culturas. Devido ao caráter oral e persistente dessas narrativas, bem como ao anonimato de suas autorias, partimos da hipótese de que a reprodução de elementos de etnicidade e práticas culturais neles presente refletem, em alguma medida e de modo implícito ou até mesmo obscuro, representações do caráter profundo de um povo e/ou de grupos étnicos a ele pertencentes; ou, na formulação de Herder: características do Volkgeist (espírito do povo). Neste estudo, de abordagem qualitativa, com base em na análise de dados empíricos (textos narrativos) para a realização de uma pesquisa comparativo-descritiva, buscamos identificar elementos de etnicidade no corpus selecionado, constituído por textos do gênero conto de fadas de mesma tradição temática. Nesse sentido, focamos não somente no que é próprio/particular, mas também no que é comum/universal. Buscamos, portanto identificar tanto traços não marcados de etnicidade, i. e., elementos étnico-culturais cuja presença é não diretamente nomeada e/ou explicitada, mas já tão naturalizada que não seja tão fácil alcançar de imediato suas origens ou significados subjacentes, quanto o significado compartilhado do tema a que rementem. Para tanto, selecionamos elementos de etnicidade, delimitados em três aspectos: religiosidade, encantamentos e simbologias da natureza, epropomos análises comparativas de três versões do que convencionamos chamar contos de cinderela em três variedades linguísticas distintas: alemão (GRIMM, 2009 [1857]), polonês (KOLBERG, 2019 [c.1885]) e português brasileiro (CÂMARA CASCUDO, 2004 [1946]), com o suporte teórico dos estudos de etnicidade (BARTH, 1998[1969]; FENTON, 2003; JENKINS, 2008)e dos ritos de passagem (VAN GENNEP, 2013 [1909]; TURNER, 1977 [1969]; 2017 [1974]). Por fim, apresentamos nossas análises com o suporte da morfologia do conto maravilhoso (PROPP, 2010 [1928]; 2002 [1946]) e de interpretações das simbologias encontradas nos textos para embasar nossa proposta de leitura de que os contos de cinderela pertencem a um ciclo temático que se utiliza da simbologia da Páscoa (morte e do renascimento), para expressar um rito de passagem feminino (da infância para a vida adulta, de solteira para casada).