A doença de Chagas é uma parasitose tropical causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi. É uma das antropozoonoses endêmicas em grande parte da América do Sul. Sua fase crônica se caracteriza por causar danos cardíacos debilitantes aos pacientes infectados, de forma que refletem drasticamente na qualidade de vida do paciente e na economia dos países endêmicos, devido aos prejuízos socioeconômicos causados. A quimioterapia atualmente existente para essa enfermidade consiste em fármacos, como o benznidazol, que são efetivos apenas na fase aguda da doença, a qual é dificilmente detectada a tempo, e em crianças, ou seja, são medicamentos com efetividade situacional. Além de tudo, ao serem usados para tratamento da fase crônica por longos períodos de tempo causam diversos efeitos adversos, principalmente no trato gastrointestinal, o que leva ao abandono da terapia pelo paciente. Esse cenário exige que as pesquisas relacionadas ao desenvolvimento de novos fármacos tripanocidas sejam intensificados. Nesse sentido, a investigação de produtos naturais bioativos ou o uso dos mesmos como modelos estruturais na criação de análogos sintéticos constitui uma estratégia importante de Química Farmacêutica. Cumarinas são metabólitos secundários produzidos por diversas espécies vegetais e apresentam ampla gama de atividade biológicas, entre elas a atividade tripanocida. Em triagem prévia com substâncias existentes na quimioteca do Laboratório de Pesquisa em Química Farmacêutica da UNIFAL-MG foi detectado que uma cumarina nitrobenzoílica (substância 1) apresentava atividade tripanocida de destaque e, portanto, foi tomada como protótipo nesse projeto. Assim, foram sintetizados derivados sintéticos desse protótipo (substâncias 2-11), com a finalidade de avaliar a contribuição farmacofórica de suas subunidades estruturais na ação pretendida e, na sequência, cada nova substância foi avaliada in vitro contra formas epimastigotas do parasita e frente a cardiomiócitos sadios, para obtenção do seu perfil de citotoxicidade. O derivado 3 apresentou a melhor atividade in vitro contra as formas epimastigotas (CI50 28 µM) dentre os derivados avaliados, tendo sido superior ao protótipo (CI50 66 µM) e equivalente ao benznidazol (CI50 25 µM). Este derivado foi escolhido para avaliação contra formas amastigotas de T. cruzi, contra as quais foi menos eficiente que o benznidazol (CI50 13 e 3 µM, respectivamente). Entretanto, nos testes in vivo foi evidenciada alta redução da parasitemia. Os animais tratados apresentaram pico máximo de 1,58 x 105 e 3,6 x 104 tripomastigotas em 100 µL de sangue, para o derivado 3 e benznidazol, respectivamente (frente a 1,35 x 106 tripomastigotas/100 µL de sangue para o controle). Do ponto de vista estrutural, conclui-se que os grupos nitrobenzoílico, n-propílico, metoxila e cetona ,-insaturada parecem ser importantes para o efeito tripanocida na série estudada, uma vez que a falta ao menos de um deles impactou negativamente na ação tripanocida.